segunda-feira, 12 de setembro de 2016
Frágil
Entre as muitas fantasias geográficas que cultivei nunca esteve África. E mesmo quando no curso me aproximei do destino futuro tropical ou sub-tropical, África sempre foi, de certa forma (indefinida mas constante), o cálice a evitar.
Foi então, sem nunca ter sido desejada, que África se materializou no convite da Marina para a acompanhar a São Tomé e Princípe.
Um pouco perdida na tarefa que tinha a desempenhar e sem dever nada a alguma antecipação que tivésse alimentado à partida, percorri pela primeira vez as ruas de São Tomé com olhar aleatório e um pouco entediado. Até que entrei no mercado e vi a primeira vendedeira a dormir sobre os produtos.
Depois vi que não era só a primeira, eram mais. E não eram só as vendedeiras, um pouco por todo o lado onde existissem tarefas a cumprir, o aborrecimento da desocupação ou o cansaço uma vez presentes eram expressos a todo o comprimento da coluna deitada sobre o trabalho.
A etimologia da palavra trabalho onde estava ? Longe o suficiente para me fazer duvidar do pecado da preguiça e pensar no pecado maior que seria negar a natureza humana na sua base que é imperfeita, frágil e tão devidamente vergonhosa quanto mais a quisermos ver assim.
Anotei Fernando Pessoa no caderno como recordatória de que se ser perfeito é ser completo e se ser completo é ser imperfeito então ser perfeito é ser imperfeito.
terça-feira, 2 de junho de 2015
Sofrer Formação
- Mas quando é que isto acaba ?
O saber não ocupa lugar mas ocupa tempo e há actividades mais urgentes como as que se ligam directamente às necessidades domésticas correntes assim como as que as provêm no médio prazo.
Mas de manhã o milagre volta a acontecer e uma por uma as minibus previstas vão-se enchendo. Não pagamos perdiem, não somos OMM, não somos Governo e sei bem o que estas presenças significam. Significam que sobre a pergunta da impaciência prevalece outra:
- E se não for, será que vou perder a oportunidade de ver a minha vida melhorar ?
O benefício da dúvida, esse benefício tão subvalorizado, revelou-me nesse momento o seu lado providencial.
E como um peregrino de longa viagem, senti-me a descobrir no meio das ervas o marco que indica os kilómetros; mas que acima de tudo indica que estou na estrada.
Como dizia o Mestre «não faças muitos planos para a vida não vás estragar os que ela tem para ti».
O bem que tudo permeia e que apenas precisa do espaço da respiração para se manifestar.
segunda-feira, 27 de abril de 2015
O Espírito do Ubuntu
«Sou o que sou por sermos todos o que somos» em dois reversos da medalha, episódios ou pessoas conhecidas:
Parte I - Tomás Novela
Toda a gente devia conhecer o Tomás. Pelo menos toda a gente que acredita no valor transformador dos movimentos sociais de base; e os que acreditam que a Ajuda ao Desenvolvimento é um mito urbano. O Tomás é a resposta local ao Desafio Global e nos caminhos que ele aponta penso na sorte dos caminhos que o trouxeram até aqui.
A sala incendeia-se mas ninguém promete dinheiro. A sala incendeia-se porque se apresentam ligações com sentido, porque chega informação.
Estamos juntos no melhor sentido do Ubuntu, que é o consenso baseado na evidência partilhada da verdade.
Parte II - Paula Venene
Ser Agente Comunitário de Saúde em Moçambique (Agente Polivalente Elementar APE) é uma profissão paga pelo estado. Mas o pagamento trimestral com muitos trimestres de atraso convertem o salário em activismo funcional - e involuntário. O Agente fica efectivamente entregue a si próprio e à sua comunidade extremamente isolada, que apenas recebe atendimento médico através de si.
A 60 km de distância do Centro de Saúde de Bela-Vista a comunidade de Mussongue sabe disto muito bem. Por isso quando a sua APE teve que buscar refúgio para si e os seus 3 filhos na comunidade vizinha de Huco - onde não tem nada além dos 10 km de distância tamponizadora das fúrias intensas mas voláteis do marido -, Mussongue não aceitou.
A Paula pode continuar a viver em Huco mas terá que se deslocar duas vezes por semana à Escola Primária de Mussongue para atender a população. A comunidade fará a devida escolta de protecção mas quanto ao transporte nada poderá fazer. Será a pé, claro.
Parte I - Tomás Novela
Toda a gente devia conhecer o Tomás. Pelo menos toda a gente que acredita no valor transformador dos movimentos sociais de base; e os que acreditam que a Ajuda ao Desenvolvimento é um mito urbano. O Tomás é a resposta local ao Desafio Global e nos caminhos que ele aponta penso na sorte dos caminhos que o trouxeram até aqui.
A sala incendeia-se mas ninguém promete dinheiro. A sala incendeia-se porque se apresentam ligações com sentido, porque chega informação.
Estamos juntos no melhor sentido do Ubuntu, que é o consenso baseado na evidência partilhada da verdade.
Parte II - Paula Venene
Ser Agente Comunitário de Saúde em Moçambique (Agente Polivalente Elementar APE) é uma profissão paga pelo estado. Mas o pagamento trimestral com muitos trimestres de atraso convertem o salário em activismo funcional - e involuntário. O Agente fica efectivamente entregue a si próprio e à sua comunidade extremamente isolada, que apenas recebe atendimento médico através de si.
A 60 km de distância do Centro de Saúde de Bela-Vista a comunidade de Mussongue sabe disto muito bem. Por isso quando a sua APE teve que buscar refúgio para si e os seus 3 filhos na comunidade vizinha de Huco - onde não tem nada além dos 10 km de distância tamponizadora das fúrias intensas mas voláteis do marido -, Mussongue não aceitou.
A Paula pode continuar a viver em Huco mas terá que se deslocar duas vezes por semana à Escola Primária de Mussongue para atender a população. A comunidade fará a devida escolta de protecção mas quanto ao transporte nada poderá fazer. Será a pé, claro.
sexta-feira, 24 de abril de 2015
Debaixo de uma Árvore
Despeço-me da cidade
Para ir trabalhar
A pensar na hora
Em que irei regressar
Primeiro ansiosa
De tanta incerteza
Outros ritmos me encontram
Nos sons da natureza
As cores mais vivas
E o silêncio mais puro
Debaixo de uma copa:
o tecto que procuro
Nesta sombra relembro
De uma velha promessa
De viver para o Outro
De viver sem ter pressa
segunda-feira, 30 de março de 2015
A boca de Krisna
Matutuíne desdobra-se para mim como o universo. Passando tanto tempo em circulação por estradas tão esquecidas quanto o próprio Distrito, poeirentas e sem sinal de rede para poder enviar pelos éteres o bip que me tornásse presente no mundo, fiz a passagem. E as estradas, revelaram as árvores, as árvores revelaram as matas e as matas revelaram as pessoas que me disseram:
- Bem vinda.
O mapa de 5000 km2
que tinha um ponto, passou a ter dois, três, dez; integrados nas
transições entre as várzeas, os pântanos, a vegetação aberta, as matas
fechadas, as curvas onde o rio passa e as rectas que as duas estradas do
Distrito atravessam. Linhas mais finas começaram também a aparecer, que
mostraram mais pontos e o mapa iluminou-se como capilares numa angiografia.
Do vago para o
concreto, o concreto inifinitamente complexo e surpreendente (na mesma escala
da matéria que é feita de espaços vazios que não esperamos jamais encontrar): vivo a promessa de uma expansão para dentro sem fim.
terça-feira, 3 de março de 2015
Ainda estão aí ? Ainda alguém se
lembra de mim ?
- na verdade sei que não me posso
queixar, emigrantes são espectros, não podem reivindicar espaços que
efectivamente (fisicamente) não ocupam.
Mas sinto a Vossa falta minhas
amigas e meus amigos. Falta dos ecos de mim própria em boas conversas em torno
de óbvios e partilhas que o abismo entre duas culturas interrompe - mesmo que por muito pouco.
Se estivésse aí hoje, estes seriam
os temas sobre os quais me ouviriam despejar verborreias:
1 - A idade
Também se estão a sentir
envelhecer? Eu estou. E depois vi a Madonna a dançar nos Grammys e pensei nessa
sombra que é a negação. Negação de que a Vida é uma boca triste e que a
plenitude das minhas forças já passou? Agarro-me à música do Chico António e do
Moreira Chonguiça que ouvi no outro dia na rádio «a idade não perdoa /quem me
dera voltar a ter 40 anos» e penso que o contrário de envelhecer não é ficar mais jovem, é morrer.
2 - Amigos
Têm feito muitos ? Eu não. Fiz um
amigo, fizémos um filho e desde então não temos tido tanto tempo para
conversar. Já pensei que tenho que me inscrever em qualquer coisa mas tudo me
aborrece e fazer um curso novo cá para me enraizar parece-me extremo. As 24 horas
vão assim passando e daqui a nada já é outra vez tempo da telenovela.
3 - Lucky Dube
Tinha a vaga ideia de mim própria
como pessoa que não é completamente indiferente à causa social mas tornei-me numa panfletária. Quando foi ? Não sei. Digam-me,
sempre fui? Ouço Born to suffer ou Prisoner do Lucky Dube e comovo-me. Aliás, Lucky Dube ? Azagaia ? É verdade. They
won't build no schools anymore, all they'll build will be prisons, prisons e penso como Foucault foi parar na letra de uma música de
alguém que provavelmente nunca o leu.
4 - O Capital no século XXI
Vamos ler juntos ?
Beijinhos,
f
quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015
A Defesa
Há um polo magnético
em torno do qual as minhas ideias gravitam: o do equívoco.
O do que está
além, complementar ao que está. O b=1-a mas só em suspeita.
E enquanto
montava a exposição a pensar mais uma vez no meu Mundo tal como o visto pelos
olhos dos outros percebi que esse esforço em permanente desequilíbrio, entre o
Parcial e o hipotético-Total é Tudo afinal.
A defesa da ideia
que começa na crença, torna-se na própria realidade. A condição simultaneamente
necessária e suficiente de que o Novo Mundo Justo apenas precisa para se
concretizar.
No fim a visita
voltou a não aparecer mas cantámos, dançámos e comemos a comida deles. Mesmo que não
nos vejam existimos - e fazemos a festa.
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