domingo, 25 de setembro de 2016

Matta Iluminada


Leitor, meu leitor amigo!
É noite e noite fechada!
Queres viajar? Vem commigo!
Não é grande a caminhada!
Apenas uma jornada.
 
Iremos ao desabrigo,
mas a floresta orvalhada
está toda embalsamada
de agrestias e perfumes
 
As luzes que aqui scintilam
não são como as da cidade,
fócos de electricidade,
como tu, leitor, presumes.
 
Os luzeiros que fuzilam,
como estrelas em cardumes,
pela escuridão cerrada,
são os próprios vagalumes
desta matta illuminada.
 
Catullo da Paixão Cearense

segunda-feira, 12 de setembro de 2016

Frágil


Entre as muitas fantasias geográficas que cultivei nunca esteve África. E mesmo quando no curso me aproximei do destino futuro tropical ou sub-tropical, África sempre foi, de certa forma (indefinida mas constante), o cálice a evitar.

Foi então, sem nunca ter sido desejada, que África se materializou no convite da Marina para a acompanhar a São Tomé e Princípe.

Um pouco perdida na tarefa que tinha a desempenhar e sem dever nada a alguma antecipação que tivésse alimentado à partida, percorri pela primeira vez as ruas de São Tomé com olhar aleatório e um pouco entediado. Até que entrei no mercado e vi a primeira vendedeira a dormir sobre os produtos.

Depois vi que não era só a primeira, eram mais. E não eram só as vendedeiras, um pouco por todo o lado onde existissem tarefas a cumprir, o aborrecimento da desocupação ou o cansaço uma vez presentes eram expressos a todo o comprimento da coluna deitada sobre o trabalho.

A etimologia da palavra trabalho onde estava ? Longe o suficiente para me fazer duvidar do pecado da preguiça e pensar no pecado maior que seria negar a natureza humana na sua base que é imperfeita, frágil e tão devidamente vergonhosa quanto mais a quisermos ver assim.

Anotei Fernando Pessoa no caderno como recordatória de que se ser perfeito é ser completo e se ser completo é ser imperfeito então ser perfeito é ser imperfeito.