segunda-feira, 12 de setembro de 2016

Frágil


Entre as muitas fantasias geográficas que cultivei nunca esteve África. E mesmo quando no curso me aproximei do destino futuro tropical ou sub-tropical, África sempre foi, de certa forma (indefinida mas constante), o cálice a evitar.

Foi então, sem nunca ter sido desejada, que África se materializou no convite da Marina para a acompanhar a São Tomé e Princípe.

Um pouco perdida na tarefa que tinha a desempenhar e sem dever nada a alguma antecipação que tivésse alimentado à partida, percorri pela primeira vez as ruas de São Tomé com olhar aleatório e um pouco entediado. Até que entrei no mercado e vi a primeira vendedeira a dormir sobre os produtos.

Depois vi que não era só a primeira, eram mais. E não eram só as vendedeiras, um pouco por todo o lado onde existissem tarefas a cumprir, o aborrecimento da desocupação ou o cansaço uma vez presentes eram expressos a todo o comprimento da coluna deitada sobre o trabalho.

A etimologia da palavra trabalho onde estava ? Longe o suficiente para me fazer duvidar do pecado da preguiça e pensar no pecado maior que seria negar a natureza humana na sua base que é imperfeita, frágil e tão devidamente vergonhosa quanto mais a quisermos ver assim.

Anotei Fernando Pessoa no caderno como recordatória de que se ser perfeito é ser completo e se ser completo é ser imperfeito então ser perfeito é ser imperfeito.