Ainda estão aí ? Ainda alguém se
lembra de mim ?
- na verdade sei que não me posso
queixar, emigrantes são espectros, não podem reivindicar espaços que
efectivamente (fisicamente) não ocupam.
Mas sinto a Vossa falta minhas
amigas e meus amigos. Falta dos ecos de mim própria em boas conversas em torno
de óbvios e partilhas que o abismo entre duas culturas interrompe - mesmo que por muito pouco.
Se estivésse aí hoje, estes seriam
os temas sobre os quais me ouviriam despejar verborreias:
1 - A idade
Também se estão a sentir
envelhecer? Eu estou. E depois vi a Madonna a dançar nos Grammys e pensei nessa
sombra que é a negação. Negação de que a Vida é uma boca triste e que a
plenitude das minhas forças já passou? Agarro-me à música do Chico António e do
Moreira Chonguiça que ouvi no outro dia na rádio «a idade não perdoa /quem me
dera voltar a ter 40 anos» e penso que o contrário de envelhecer não é ficar mais jovem, é morrer.
2 - Amigos
Têm feito muitos ? Eu não. Fiz um
amigo, fizémos um filho e desde então não temos tido tanto tempo para
conversar. Já pensei que tenho que me inscrever em qualquer coisa mas tudo me
aborrece e fazer um curso novo cá para me enraizar parece-me extremo. As 24 horas
vão assim passando e daqui a nada já é outra vez tempo da telenovela.
3 - Lucky Dube
Tinha a vaga ideia de mim própria
como pessoa que não é completamente indiferente à causa social mas tornei-me numa panfletária. Quando foi ? Não sei. Digam-me,
sempre fui? Ouço Born to suffer ou Prisoner do Lucky Dube e comovo-me. Aliás, Lucky Dube ? Azagaia ? É verdade. They
won't build no schools anymore, all they'll build will be prisons, prisons e penso como Foucault foi parar na letra de uma música de
alguém que provavelmente nunca o leu.
4 - O Capital no século XXI
Vamos ler juntos ?
Beijinhos,
f