sexta-feira, 26 de novembro de 2010

"Cidade 1985"

De manhã quando acordo em Maputo
o almoço é uma esperança.
Mãe tenho fome
marido tenho bicha
e mil malárias me disputando a vontade.

De manhã quando acordo em Maputo
o jantar é uma incerteza
o serviço uma militância política
do outro lado do sono incompleto
e o chapa-cem um regulado impiedoso
no quatro barra oitenta sem contra-argumento.

De manhã quando acordo em Maputo
o vizinho já candongou o que me roubou
a estomatologia não tem anestesia
a chuva abriu dialecticamente mais um buraco na estrada
e o conselho executivo continua desdentado de iniciativas.

De manhã quando acordo em Maputo
Porra para a vizinha que estoirou a torneira do rés-do-chão
Porra para o guarda que não ligou a bomba quando veio a água
Porra para os cem gramas de carne apodrecidos
no silêncio desenergético de Komatipoort
mais as ó eme sede de efes
e o soldado que ainda não ouviu dizer que os passeios são lugares públicos
e os fulanizados exploradores de outrora que se preparam para cuspir na tua campa, ó Mataca
às ordens de um Mouzinho boer.

De manhã quando me percorro em Maputo
enfio ominosamente o cérebro numa competentíssima paciência
desembainho felinamente mais uma mentira diplomática
e aguardo que a lucidez companheira me leia nas acácias em sangue
nos jacarandás estalando sob a sola epidérmica do povo
que este é ainda o eco estridente do Chai
até que Botha seja farmeiro e Mandela Presidente.

Então,
com a raiva intacta resgatada à dor
danço no coração um xigubo guerreiro
e clandestinamente soletro a utopia invicta.

À noite quando me deito em Maputo
não preciso de rezar.
Já sou herói.


Carlos Cardoso

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Branca

O meu dia corre veloz na minha Nissan Patrol, branca como eu. Na machamba sou "minha engenheira" de alguns, que algum dia serão menos, por força da aparente evidência da sua pouca produtividade. Como carvão numa estufa, queimo esperanças e sonhos pelo uso dos seus braços e corpos inteiros.

Os milhares que me rodeiam podiam ser zero porque habito a minha ilha de cor branca. Branca de cultura e consciência de que eu sou o pescador e eles a maré. E branca de inveja da rendição, de não saber como ser uma maré.

No colo das montanhas do Gurué pouso a minha cabeça. Sempre fui estrangeira na minha pele mas aqui sinto-me em casa.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

O mercador Somali


"… le Printemps est arrivé"
Natacha Atlas

Desde a primeira que vez que entrou na loja dele para comprar uma cafeteira eléctrica que achou que aquela era definitivamente a melhor loja de toda a povoação. O seu gosto pelo exótico rejubilou de realização naqueles 8 m2 repletos de electrodomésticos vindos do Dubai, que preenchiam as paredes, nas respectivas caixas, até ao tecto; e de ‘o’ ver majestoso, de frente para a entrada da sua loja, no centro do seu reino cubicular: o mercador somali. Ela lembra-se que estava um barulho ensurdecedor, por causa de um altifalante que ele tinha ligado a Meca, desde onde se cantavam palavras de êxtase. Mas mesmo assim pediu-lhe "uma cafeteira eléctrica" sem ajustar o tom de voz, não reparando que ele não só não tinha ouvido como não tinha percebido o que ela tinha dito. Afinal ele não falava português e antes de perceber que podiam intermediar objectivos (o dela de comprar e o dele de vender) em inglês ainda se inquietou de pensar que ele só falásse árabe. O problema maior era mesmo o barulho e sem deixar de olhar para ela, ele levou a mão atrás e com controlo rodou o botão do volume até sorrir e perguntar "yes?". Era um homem de tronco comprido, daqueles que em proporção parecem superar as pernas, com uma suave mas proeminente barriga, sendo contudo de compleição magra. As feições tinham aquela composição típica da África Oriental do Corno e Mar Vermelho, com traços árabes e cor africana. Os olhos sampacos não a surpreenderam e talvez porque lhe lembrássem de outros, achou-os cativantes; e foi assim que se completou em poucos minutos a compra que, sem sobressaltos ou desagrado, poderia ter levado o resto do dia. Enquando descia as escadas, depois de se ter despedido, pensava que talvez tivésse que voltar outro dia para comprar uma batedeira.

Ela voltou mas infelizmente as batedeiras nunca mais chegavam, a loja tinha cada vez mais clientes e foi num dia assim, em que ela se conformava com o eminente abandono da fantasia, que ele a chamou. Estava a precisar de dólares. De dólares ela não sabia o suficiente para negociar, mas ali estava uma oportunidade de aprender. Disse-lhe – desprevenida – que não o podia ajudar, tinha muita pena mas antevendo que uma ida ao banco seria para ele um passo vedado, ficou a pensar em formas de ajudar. Depois de ponderar prós e contras voltou à loja para lhe oferecer a sua solução.

Como habitualmente, ele sorriu quando a viu aparecer. Mas desta vez havia mais qualquer coisa, como um desejo de falar antes que ela o pudésse ouvir ou compreender. Apercebendo-se da urgência, abreviou o mais que pôde a distância entre a rua, de onde o vislumbrava, e o lugar onde ele estava (na sua posição habitual, no centro da loja de frente para a porta). Afinal ela também tinha pressa de lhe falar. A meio dos escassos passos que separavam a entrada do balcão ela perguntou-lhe "sim?..." ao que ele respondeu "… já chegaram as batedeiras …!".

Ele já não lhe conseguia mais dizer que ainda não tinha as batedeiras. Via a decepção estampada nela, a cada despedida e não era para isso que ele estava ali. Escapou-lhe uma vez por precipitação perguntar-lhe por dólares mas não era essa a finalidade. Queria-lhe perguntar o nome, pedir-lhe desculpa por nunca mais conseguir as batedeiras e quem sabe ter a oportunidade de lhe contar como negociava; como as batedeiras estavam tão perto e tão longe dele como ela estava. Pudésse ele trocar todos aqueles meticais por dólares e conseguiria finalmente os dois meses de folhas de encomendas e as 10 batedeiras que nelas estavam (e delas ter ao menos uma). Finalmente o irmão em Nampula resolveu o que lhe devia e desde esse dia que ele esperava vê-la outra vez aparecer na rua em direcção à sua porta. Vê-la compunha-lhe o sentido de estar ali, no lugar de dono do seu negócio e agora as circunstâncias devolviam-lhe a plena dignidade da sua posição.

Ela não podia acreditar que a alegria dele era por si e o coração dele chocou-se quando a viu sorrir-lhe com tanta ternura. Ela pediu-lhe que ele a convidásse para almoçar um dia e ele perguntou "amanhã?". Foi na língua dele mas ela percebeu.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Uma vida normal

Todas as famílias são felizes da mesma maneira

Talvez seja essa a maior dificuldade, ver as semelhanças quando as diferenças são tão flagrantes quanto a cor da pele. Havendo tal disposição, a divisão permanecerá tão irredutível quanto o branco ser branco e o negro, negro. Aqui se deitou o ribeiro dos meus sofrimentos em Mitúcuè, o alfa e o omega de cada dia: como é que o nascimento de alguém, tão imaculado e fortuito quanto é, nos distribui por pólos tão afastados da fortuna. Sem precisar dizer nada, era tudo o que a minha presença dizia. Eram pobres afinal. Ainda mais grave era a possibilidade de que mesmo não sendo esta a maneira de pensar de mais ninguém, era a minha.

A comida era pouca e a partir de um certo ponto passava uma parte considerável do dia a pensar em formas de comer melhor e no que poderia comer se estivésse em casa. Mas pensava também que com todas as dificuldades desses dias, para mim eram apenas alguns dias e comecei a acusar a culpa de me alegrar de não estar, como eles, acorrentada àquela vida. Toda a sua existência ficou afinal encapsulada pelos aspectos supérfluos da minha e tudo isto envolvido num falso sentido de misericórdia. Um grande flagelo.

Foi assim que o dia 19 de Agosto me apanhou desprevenida. Era o dia do regresso a Cuamba, o fim ‘daqueles’ dois meses mas coincidentemente era também o dia do regresso a casa dos rapazes, depois das três semanas da iniciação. Ao fim de tanto tempo passado a esgotar todas as perspectivas sobre o seu precário modo de vida, até aos ínfimos pormenores, aquela celebração deixou-me encadeada como a luz do sol quando saímos com os olhos habituados à sombra. Não foi um grande espectáculo, nem teve nada assim de muito exuberante mas talvez tenha sido mesmo isso, a contenção daquela alegria. Depois de tudo era a última coisa que eu esperava encontrar: delicadeza, elegância e um profundo sentido do sagrado. A seguir da cerimónia conjunta os rapazes são levados para casa onde os familiares se juntam para almoçar. Nesse dia pouca ou nenhuma importância me foi dada; a mim e a tudo o que fosse que eu representasse. O alfa e o omega deles estava ali e podia durar um segundo ou uma eternidade. Ninguém se arrependeria por nada de nascer na sua pele, porque aquela pele era a sua e a pertença, sentia-se, inundava todo o ambiente. Estava a debicar o arroz e lembro-me de levantar a cabeça, olhar e de perceber ali finalmente uma vida normal e de nada mais ver além de uma vida normal. Um domingo na vida de qualquer família que se estima.

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Os Sete Montes de Namacoma


Os camiões vindos de Nampula entram em Cuamba a considerável velocidade, tendo em conta que a via rápida é de terra batida e a principal via de circulação local de peões, automóveis e bicicletas. Por cima deles, ergue-se majestoso o inselberg de Mitúcuè e o enquadramento desproporcionadamente grande, desde o primeiro vislumbre, fez ecoar sombras góticas na minha imaginação.
Muitas histórias se contam de Mitúcuè e do seu chefe Namacoma, que até ao fim da guerra conservou incólume o seu território e a sua barragem, como bastião da resistência da Frelimo numa área dominada pela força contrária. E muitas histórias se contam também das pessoas de Mitúcuè de quem se diz nomeadamente serem “conflituosos”. Não muitas mais das que eventualmente venha reproduzir mas muitas mais das duas ou três que da minha curta passagem posso retirar. A «farinha mágica» ou o «segredo da terra» são índices do chão por onde passei sem entrar.
Mesmo que não pudésse testemunhar da sua capacidade de ouvir os meus pensamentos e de falar sem som, basta olhar de Cuamba para Mitúcuè para nada menos que o extraordinário se esperar do chefe Namacoma, da sua família e da sua população. A insularidade pelo menos parcialmente pode explicar alguma coisa e lá em cima vive-se num mundo paralelo. Nem a vista pode alcançar outra coisa além do céu (sem aviões, que ouvimos mas que misteriosamente não conseguimos ver passar) porque a montanha tem a forma de dente molar e à nossa volta a coroa ergue-se como uma parede de granito, arredondada pelo ar e pela chuva durante milhões de anos.
Namacoma em termos orográficos pode-se descrever como uma elipse de sete montes aberta num dos focos e cuja portela é ladeada a nascente pelo monte Mitúcuè e a nordeste pelo monte M'Fua. No desenho aqui fotografado (se alguma coisa for perceptível) esta coroa dos montes de Namacoma está dividida em dois campos de visão, de aproximadamente de 180º: na primeira linha com a orientação nascente-sudoeste estão nos pontos extremos os montes Mitucúè e Natiti respectivamente; na segunda, os montes Mavereni e M'Fua completam a cadeia na orientação sudoeste-nordeste. Bate certo?
No fundo do dente molar a terra é picada até à exaustão para dar milho e apesar do chefe me dizer que não há falta de terra para cultivar diz também que “muita gente há”, o que encerra um interessante paradoxo. Quem quer passar tempos mais tranquilos tem que descer e ir até Mussoroni procurar áreas simultaneamente novas e disponíveis. A caminhada é longa e afasta de Cuamba, o que representa o grande constrangimento de ter que ir para o “mato” para comer. Os que podem e mesmo os que não podem por isso esforçam-se por segurar os poucos privilégios que tenham em Namacoma, onde a competição por áreas é palpável.
Posso dizer que as emoções que por ali corriam eram voláteis e transparentes e, ao fim de algum tempo, foi inevitável desenvolver uma certa simpatia por aquela exacerbação diária a que era sujeita a minha paz de espírito. Talvez para isso tenha contribuído a mesma montanha que me confinava, porque como me empurrava os olhos para cima tornava quase inevitável o exercício da súplica, que realmente pratiquei. Familiarizei-me com Namacoma e como na manhã da minha descida vi um avião, considero certificada como autêntica a minha impressão de conquista vitoriosa do território e aprovada pelas forças do destino.

sexta-feira, 17 de julho de 2009

A Montanha


Aqui está a única fotografia que fiz de Mitúcuè. A máquina digital que possuía na altura avariou-se pouco tempo antes da partida para Moçambique e eu decidi aproveitar a oportunidade para um teste à vida: levei apenas um rolo de 24 fotografias. Um desafio à voracidade do olhar por detrás de uma máquina fotográfica e à minha capacidade de me apresentar desarmada à população, sem a plataforma universal de comunicação que é a fotografia.
Recusei muitas vezes fotografias e se já era estranho para eles terem-me ali, ainda mais estranho era terem-me ali sem lhes tirar fotografias. Mas valeu a pena. Nada como o jejum [e a fome] para nos abrir ao maior tesouro da vida: o tempo que não volta atrás.

terça-feira, 31 de março de 2009

A Arte da Fome

Prefácio de Paul Auster à 'Fome' de Knut Hamsun

 

Aquilo que é importante, parece-me, não é tanto o defender a cultura, cuja existência nunca impediu um homem de passar fome, mas sim o extrair daquilo que se chama cultura, ideias cuja força motivadora seja idêntica à da fome.
Antonin Artaud
 
Um homem jovem chega a uma cidade. Não tem nome, casa ou trabalho; ele veio para a cidade para escrever. Ele escreve. Ou, mais precisamente, ele não escreve. Ele passa fome até estar quase morto.
A cidade é Kristiania (hoje Oslo); o ano é o de 1890. O jovem vagueia pelas ruas: a cidade é um labirinto de fome, e todos os seus dias são iguais. Escreve artigos não solicitados para um jornal local. Preocupa-se com a renda, as roupas cada dia mais degradadas, a dificuldade de conseguir a refeição seguinte. Sofre. Chega quase a enlouquecer. Nunca está a menos de um passo do colapso.
Ainda assim, escreve. De vez em quando consegue vender um artigo que lhe permite uma trégua temporária na sua miséria. Mas está demasiado fraco para conseguir escrever regularmente e raramente consegue terminar as peças que começou. Entre os seus trabalhos abortados encontram-se um ensaio intitulado «Crimes do futuro», um tratado filosófico sobre a liberdade da vontade, uma alegoria sobre um incêndio numa livraria (os livros são cérebros), e uma peça passada na Idade Média, O sinal da cruz. O processo é inevitável: ele tem de comer de modo a escrever. Mas se não escrever, não conseguirá comer. E se não pode comer, não pode escrever. Ele não pode escrever.
Ele escreve. Ele não escreve. Ele vagueia pelas ruas da cidade. Fala em voz alta para si mesmo em público. Assusta as pessoas, que se afastam dele. Quando, por acaso, consegue algum dinheiro, oferece-o. É posto fora do quarto que arrendara. Come e depois vomita tudo. A certa altura namorisca com uma rapariga, mas nada daí resulta a não ser humilhação. Passa fome. Amaldiçoa o seu mundo. Ele não morre. No fim sem razão aparente, oferece-se para fazer parte da tripulação de um barco e parte da cidade.
Este é o esqueleto do primeiro romance de Knut Hamsun, Fome. (...) Fome ou um retrato do artista enquanto jovem. Mas é uma aprendizagem que pouco tem que ver com as lutas precoces de outros escritores. O herói de Hamsun não é nenhum Stephen Dedalus e praticamente não há uma palavra em Fome sobre teoria estética. O mundo da arte foi traduzido enquanto mundo do corpo - e o texto original foi abandonado. A fome não é uma metáfora, é o verdadeiro fulcro do problema. Se outros como Rimbaud, com o seu programa para a confusão voluntária dos sentidos, tornaram o corpo um princípio estético de direito próprio, o herói de Hamsun rejeita abertamente a oportunidade de usar as suas deficiências a seu favor. Está debilitado, perdeu controlo sobre os seus próprios pensamentos e ainda assim continua a lutar por manter a lucidez na sua escrita. (...) Não se pode escrever de estômago vazio por mais que se tente. Mas seria errado considerar-se o herói de Fome como um lunático ou um idiota. Para lá da evidência, ele sabe o que está a fazer. Ele não pretende ser bem sucedido. Ele quer falhar.
(...) No final de tudo, a arte da fome pode ser descrita como arte existencial. É uma forma de olhar a morte nos olhos e por morte quero dizer a morte como a vivemos hoje: sem Deus, sem esperança de salvação. Morte como o fim abrupto e absurdo da vida.
Acho que não chegámos mais longe do que isto. É mesmo possível que tenhamos chegado a este ponto há mais tempo do que estejamos prontos a admitir. Durante todo este tempo, contudo, apenas alguns artistas foram capazes de o reconhecer. Requer coragem e não muitos de nós estariam dispostos a arriscar tudo por nada. Mas isso é o que acontece em Fome, um romance escrito em 1890. A personagem de Hamsun alivia-se sistematicamente de qualquer crença em qualquer sistema, e no final, por meio da fome que se inflingiu, alcança nada. Não há nada para o manter em movimento - e ainda assim continua. Caminha bem para dentro do século XX.