Os camiões vindos de Nampula entram em Cuamba a considerável velocidade, tendo em conta que a via rápida é de terra batida e a principal via de circulação local de peões, automóveis e bicicletas. Por cima deles, ergue-se majestoso o inselberg de Mitúcuè e o enquadramento desproporcionadamente grande, desde o primeiro vislumbre, fez ecoar sombras góticas na minha imaginação.
Muitas histórias se contam de Mitúcuè e do seu chefe Namacoma, que até ao fim da guerra conservou incólume o seu território e a sua barragem, como bastião da resistência da Frelimo numa área dominada pela força contrária. E muitas histórias se contam também das pessoas de Mitúcuè de quem se diz nomeadamente serem “conflituosos”. Não muitas mais das que eventualmente venha reproduzir mas muitas mais das duas ou três que da minha curta passagem posso retirar. A «farinha mágica» ou o «segredo da terra» são índices do chão por onde passei sem entrar.
Mesmo que não pudésse testemunhar da sua capacidade de ouvir os meus pensamentos e de falar sem som, basta olhar de Cuamba para Mitúcuè para nada menos que o extraordinário se esperar do chefe Namacoma, da sua família e da sua população. A insularidade pelo menos parcialmente pode explicar alguma coisa e lá em cima vive-se num mundo paralelo. Nem a vista pode alcançar outra coisa além do céu (sem aviões, que ouvimos mas que misteriosamente não conseguimos ver passar) porque a montanha tem a forma de dente molar e à nossa volta a coroa ergue-se como uma parede de granito, arredondada pelo ar e pela chuva durante milhões de anos.
Namacoma em termos orográficos pode-se descrever como uma elipse de sete montes aberta num dos focos e cuja portela é ladeada a nascente pelo monte Mitúcuè e a nordeste pelo monte M'Fua. No desenho aqui fotografado (se alguma coisa for perceptível) esta coroa dos montes de Namacoma está dividida em dois campos de visão, de aproximadamente de 180º: na primeira linha com a orientação nascente-sudoeste estão nos pontos extremos os montes Mitucúè e Natiti respectivamente; na segunda, os montes Mavereni e M'Fua completam a cadeia na orientação sudoeste-nordeste. Bate certo?
No fundo do dente molar a terra é picada até à exaustão para dar milho e apesar do chefe me dizer que não há falta de terra para cultivar diz também que “muita gente há”, o que encerra um interessante paradoxo. Quem quer passar tempos mais tranquilos tem que descer e ir até Mussoroni procurar áreas simultaneamente novas e disponíveis. A caminhada é longa e afasta de Cuamba, o que representa o grande constrangimento de ter que ir para o “mato” para comer. Os que podem e mesmo os que não podem por isso esforçam-se por segurar os poucos privilégios que tenham em Namacoma, onde a competição por áreas é palpável.
Posso dizer que as emoções que por ali corriam eram voláteis e transparentes e, ao fim de algum tempo, foi inevitável desenvolver uma certa simpatia por aquela exacerbação diária a que era sujeita a minha paz de espírito. Talvez para isso tenha contribuído a mesma montanha que me confinava, porque como me empurrava os olhos para cima tornava quase inevitável o exercício da súplica, que realmente pratiquei. Familiarizei-me com Namacoma e como na manhã da minha descida vi um avião, considero certificada como autêntica a minha impressão de conquista vitoriosa do território e aprovada pelas forças do destino.
