quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

O mercador Somali


"… le Printemps est arrivé"
Natacha Atlas

Desde a primeira que vez que entrou na loja dele para comprar uma cafeteira eléctrica que achou que aquela era definitivamente a melhor loja de toda a povoação. O seu gosto pelo exótico rejubilou de realização naqueles 8 m2 repletos de electrodomésticos vindos do Dubai, que preenchiam as paredes, nas respectivas caixas, até ao tecto; e de ‘o’ ver majestoso, de frente para a entrada da sua loja, no centro do seu reino cubicular: o mercador somali. Ela lembra-se que estava um barulho ensurdecedor, por causa de um altifalante que ele tinha ligado a Meca, desde onde se cantavam palavras de êxtase. Mas mesmo assim pediu-lhe "uma cafeteira eléctrica" sem ajustar o tom de voz, não reparando que ele não só não tinha ouvido como não tinha percebido o que ela tinha dito. Afinal ele não falava português e antes de perceber que podiam intermediar objectivos (o dela de comprar e o dele de vender) em inglês ainda se inquietou de pensar que ele só falásse árabe. O problema maior era mesmo o barulho e sem deixar de olhar para ela, ele levou a mão atrás e com controlo rodou o botão do volume até sorrir e perguntar "yes?". Era um homem de tronco comprido, daqueles que em proporção parecem superar as pernas, com uma suave mas proeminente barriga, sendo contudo de compleição magra. As feições tinham aquela composição típica da África Oriental do Corno e Mar Vermelho, com traços árabes e cor africana. Os olhos sampacos não a surpreenderam e talvez porque lhe lembrássem de outros, achou-os cativantes; e foi assim que se completou em poucos minutos a compra que, sem sobressaltos ou desagrado, poderia ter levado o resto do dia. Enquando descia as escadas, depois de se ter despedido, pensava que talvez tivésse que voltar outro dia para comprar uma batedeira.

Ela voltou mas infelizmente as batedeiras nunca mais chegavam, a loja tinha cada vez mais clientes e foi num dia assim, em que ela se conformava com o eminente abandono da fantasia, que ele a chamou. Estava a precisar de dólares. De dólares ela não sabia o suficiente para negociar, mas ali estava uma oportunidade de aprender. Disse-lhe – desprevenida – que não o podia ajudar, tinha muita pena mas antevendo que uma ida ao banco seria para ele um passo vedado, ficou a pensar em formas de ajudar. Depois de ponderar prós e contras voltou à loja para lhe oferecer a sua solução.

Como habitualmente, ele sorriu quando a viu aparecer. Mas desta vez havia mais qualquer coisa, como um desejo de falar antes que ela o pudésse ouvir ou compreender. Apercebendo-se da urgência, abreviou o mais que pôde a distância entre a rua, de onde o vislumbrava, e o lugar onde ele estava (na sua posição habitual, no centro da loja de frente para a porta). Afinal ela também tinha pressa de lhe falar. A meio dos escassos passos que separavam a entrada do balcão ela perguntou-lhe "sim?..." ao que ele respondeu "… já chegaram as batedeiras …!".

Ele já não lhe conseguia mais dizer que ainda não tinha as batedeiras. Via a decepção estampada nela, a cada despedida e não era para isso que ele estava ali. Escapou-lhe uma vez por precipitação perguntar-lhe por dólares mas não era essa a finalidade. Queria-lhe perguntar o nome, pedir-lhe desculpa por nunca mais conseguir as batedeiras e quem sabe ter a oportunidade de lhe contar como negociava; como as batedeiras estavam tão perto e tão longe dele como ela estava. Pudésse ele trocar todos aqueles meticais por dólares e conseguiria finalmente os dois meses de folhas de encomendas e as 10 batedeiras que nelas estavam (e delas ter ao menos uma). Finalmente o irmão em Nampula resolveu o que lhe devia e desde esse dia que ele esperava vê-la outra vez aparecer na rua em direcção à sua porta. Vê-la compunha-lhe o sentido de estar ali, no lugar de dono do seu negócio e agora as circunstâncias devolviam-lhe a plena dignidade da sua posição.

Ela não podia acreditar que a alegria dele era por si e o coração dele chocou-se quando a viu sorrir-lhe com tanta ternura. Ela pediu-lhe que ele a convidásse para almoçar um dia e ele perguntou "amanhã?". Foi na língua dele mas ela percebeu.