segunda-feira, 30 de março de 2015

A boca de Krisna


Matutuíne desdobra-se para mim como o universo. Passando tanto tempo em circulação por estradas tão esquecidas quanto o próprio Distrito, poeirentas e sem sinal de rede para poder enviar pelos éteres o bip que me tornásse presente no mundo, fiz a passagem. E as estradas, revelaram as árvores, as árvores revelaram as matas e as matas revelaram as pessoas que me disseram:
- Bem vinda.
O mapa de 5000 km2 que tinha um ponto, passou a ter dois, três, dez; integrados nas transições entre as várzeas, os pântanos, a vegetação aberta, as matas fechadas, as curvas onde o rio passa e as rectas que as duas estradas do Distrito atravessam. Linhas mais finas começaram também a aparecer, que mostraram mais pontos e o mapa iluminou-se como capilares numa angiografia.
Do vago para o concreto, o concreto inifinitamente complexo e surpreendente (na mesma escala da matéria que é feita de espaços vazios que não esperamos jamais encontrar): vivo a promessa de uma expansão para dentro sem fim.

terça-feira, 3 de março de 2015

Email



Ainda estão aí ? Ainda alguém se lembra de mim ?
- na verdade sei que não me posso queixar, emigrantes são espectros, não podem reivindicar espaços que efectivamente (fisicamente) não ocupam.
Mas sinto a Vossa falta minhas amigas e meus amigos. Falta dos ecos de mim própria em boas conversas em torno de óbvios e partilhas que o abismo entre duas culturas interrompe - mesmo que por muito pouco.
Se estivésse aí hoje, estes seriam os temas sobre os quais me ouviriam despejar verborreias:
1 - A idade
Também se estão a sentir envelhecer? Eu estou. E depois vi a Madonna a dançar nos Grammys e pensei nessa sombra que é a negação. Negação de que a Vida é uma boca triste e que a plenitude das minhas forças já passou? Agarro-me à música do Chico António e do Moreira Chonguiça que ouvi no outro dia na rádio «a idade não perdoa /quem me dera voltar a ter 40 anos» e penso que o contrário de envelhecer não é ficar mais jovem, é morrer.
2 - Amigos
Têm feito muitos ? Eu não. Fiz um amigo, fizémos um filho e desde então não temos tido tanto tempo para conversar. Já pensei que tenho que me inscrever em qualquer coisa mas tudo me aborrece e fazer um curso novo cá para me enraizar parece-me extremo. As 24 horas vão assim passando e daqui a nada já é outra vez tempo da telenovela.
3 - Lucky Dube
Tinha a vaga ideia de mim própria como pessoa que não é completamente indiferente à causa social mas tornei-me numa panfletária. Quando foi ? Não sei. Digam-me, sempre fui? Ouço Born to suffer ou Prisoner do Lucky Dube e comovo-me. Aliás, Lucky Dube ? Azagaia ? É verdade. They won't build no schools anymore, all they'll build will be prisons, prisons e penso como Foucault foi parar na letra de uma música de alguém que provavelmente nunca o leu.
4 - O Capital no século XXI
Vamos ler juntos ?
Beijinhos,
f

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

A Defesa

Há um polo magnético em torno do qual as minhas ideias gravitam: o do equívoco.

O do que está além, complementar ao que está. O b=1-a mas só em suspeita.

E enquanto montava a exposição a pensar mais uma vez no meu Mundo tal como o visto pelos olhos dos outros percebi que esse esforço em permanente desequilíbrio, entre o Parcial e o hipotético-Total é Tudo afinal.

A defesa da ideia que começa na crença, torna-se na própria realidade. A condição simultaneamente necessária e suficiente de que o Novo Mundo Justo apenas precisa para se concretizar.

No fim a visita voltou a não aparecer mas cantámos, dançámos e comemos a comida deles. Mesmo que não nos vejam existimos - e fazemos a festa.

sábado, 17 de janeiro de 2015

Viagem de Natal



Depois de 5 anos a olhar para o Mapa e a pensar que havia todo um país pela frente dia 23 de Dezembro de 2014 fiz-me finalmente à estrada. O destino era a Consoada na Alta Zambézia mas o Grande Objectivo era percorrer os Kilómetros pelo Meio. 

Fiquei grossa de cansaço, virada do avesso e nos últimos dias abandonando totalmente qualquer esforço de gerir a má-disposição. Foram 6000 km em 12 dias o que subtraindo 3 dias de paragem e os 950 km percorridos nos 4 dias de passeio pela Província Amada dá a média muito próxima da realidade de cada um dos dias restantes: 1010 km/dia. Eram primeiro 3 horas e só mais 150 km até à Paragem para Esticar as Pernas, 300 até ao Cruzamento Estratégico e finalmente encontramos a placa que indica que o fim da jornada se aproxima: só faltam mais 250 km. 

A estrada era só por si o Destino. O resto eram as muitas Saudades. Das nuvens espessas, altas e de vários tipos no mesmo pedaço de céu; da chuva convectiva de verdade que ilumina as nuvens de tempestade com clarões como se fossem balões de papel; das estradas que passam na cota mais elevada e deixam o horizonte na linha dos sonhos. Saudades também de rever a Ilha Onde o Tempo Parou e da Baía Mais Linda, onde tomo banho com os embondeiros ao fundo.

Antes de terminar a viagem houve ainda espaço para as Descobertas e de todas a do Centro do País. Tinham-me jurado que já tinha visto há muito tempo o verde mais intenso do País porque tinha vivido nele durante um ano e meio - mas não tinha. Talvez essa falsa garantia tenha feito o verde daquela manhã mais verde e mais fresco do que realmente era; os oblíquos raios solares mais virginais, as matas mais mágicas. Mas para que dúvidas não restassem, a EN1 curva metade do perímetro do Grande Monte onde o líder do principal partido da oposição se escondeu e temos muito tempo para reflectir sobre tudo Aquilo. Afinal a camuflagem que ali se oferece não é a do relevo mas a da densidade da clorofila que reflete a Luz do Sol como um clarão do Outro Mundo. 

Na chegada a casa agradeço à Vida, juro que nunca mais volto a fazer uma viagem igual e começo os planos para uma nova. Daqui a menos de 5 anos.














sábado, 8 de novembro de 2014

poeira

Todos os dias vais grosso pela estrada. Todos os dias o mesmo abandono, o mesmo encontro, o mesmo caminho para casa.
Cinco passos, tropeças e um trambulhão. E é onde cais que ficas, de barriga estendida a ver o céu do chão.
Só que hoje não chove há 4 dias e à passagem de cada carro, o céu desaparece e a tua cara enche-se de poeira.
Por isso quando te vi já aproximavas as pernas uma a uma para o peito. E foi com a cabeça entre os joelhos que te vi desaparecer no espelho.