quarta-feira, 22 de outubro de 2014

O Mundo no tempo certo

Nota: Introdução para o JINSP de Odemira





Há uns anos atrás ficámos todos chocados ao descobrir que as nossas crianças estavam a crescer sem saber que as ervilhas e os frangos não nascem nas arcas frigoríficas dos supermercados. A privação mais grave não era sequer a do conhecimento mas a do contacto com o meio natural que esse grande equívoco revelava.

O milagre da vida é um mistério a contemplar de olhos abertos e nunca esse mistério nos tocará de forma tão plena como na infância. Devemos também saber que essa criança não morre para dar lugar ao adolescente, que por sua vez dará lugar ao adulto. Essa criança é a nossa capacidade e anseio de viver a vida num estado puro.

Os alimentos foram a primeira infância do conhecimento do mundo e a fundação da sociedade. Quando conseguimos começar a interpretar os ciclos do ano e os ciclos das plantas pudémos sedentarizar comunidades, alargá-las em número e abrir espaço para os mais fracos e indefesos. O alimento é a manifestação mais concreta da mãe-natureza que sustenta a vida e todos os nossos sentidos guardam registo deste início primordial.

Podemos passar a vida inteira sem ter noção da magnitude desta ligação. Ou podemos ir viver para um hemisfério diferente (o outro, afinal são só dois) e de repente Novembro e ser Primavera. Também se aprende que existe outro borda d’água, no olhar e lentidão dos mais velhos. Mas não é o borda d’água das nossas estações. Vamos sempre andar à procura de referências no calendário e não as vamos encontrar. As conhecidas não estão, as novas enraízam ainda mas as raízes de estaca são sempre mais superficiais. É uma impressão estranha. Talvez tenha sido como a Eva se sentiu depois de morder a maçã.
 
O paraíso é onde a nossa infância está. Um lugar de cheiros, sabores e cadências que para o resto da vida nos dizem o caminho de casa.

sábado, 19 de julho de 2014

Ferry das 22:30







Ferry das 22:30 é o transporte escolar dos alunos dos cursos nocturnos.
Por dentro ajoelho em admiração de como o mundo é acima de tudo um espaço interior. De que outra forma a sala de passageiros do Mpfumu seria convidativa à disciplina dos TPCs ?
Á esquerda a caneta deita fumo de tão rapidamente se resolvem equações de 2º grau; à direita estuda-se a fisiologia dos dentes e da boca; e ainda mais à direita a estrutura da visão noturna é recitada sílaba por sílaba num mergulho tão profundo que só pode vir de dentro da própria retina.
Por um lado tem que ser, faltam poucas horas para o início de um novo dia e ainda é preciso dormir. Mas por outro:  ... caramba !
Se a Educação fosse uma guerra esta seria a sua gloriosa frente de batalha.

sexta-feira, 20 de junho de 2014

Primavera


«Um novo paradigma começa a ser notado, o paradigma do mundo vivo dos sujeitos em que o erro faz parte da verdade,  o preconceito prenuncia o conceito, a racionalidade não exclui a intuição ou a imaginação, a crença é o início da ciência, a linguagem é ser e a história é tempo presente.»

(Adolfo Yañez-Casal)

terça-feira, 20 de maio de 2014

A Catembe


«Mas acho que também aprendi, entretanto, a rir-me de mim mesmo, das minhas incompetências congénitas e do mau-feitio que neste mundo sou evidentemente o único a ter. E tem uns intervalos em que tudo parece ficar virginalmente vivável, bom e bonito, conforme pensa a onça quando, segundo Guimarães Rosa, não teme nada e vai, guiada só pela alma que tem.»
Ruy Duarte de Carvalho





Talvez motivada pela nova máquina fotográfica enviada de Lx, tenho andado pela Catembe assim, guiada só pela alma que tenho. E tem sido um intervalo em que a vejo virginalmente vivável, boa e bonita como se a estivésse a ver pela primeira vez. Tão próxima de Maputo, o tesouro só se vislumbra daqui: é que Maputo tem vista para a Catembe mas a Catembe tem vista para o mar.


quinta-feira, 6 de março de 2014

Helena

Fina como o capim, frágil como as flores do campo, Helena dá-me a mão.
Fala muito mal, pouco se entende. Fala com gestos feitos de lentidão.

Usa os sapatos trocados nos pés, a camisa vestida para trás
- com sorriso imperturbável faz com os ombros um «... tanto faz».

Não tem mãe, nem pai, vizinha, titia ou vóvó.
Helena do orfanato, tantas Helenas. Helena está só.




quarta-feira, 5 de março de 2014

O Grande Horizonte



Pode ser real ou uma paisagem interior. A percepção de um grande acerto nos olhos do meu filho. A sinfonia super alto nas matas do Gurué mas que só eu ouço.

É uma impressão acompanhada de vertigem, uma relação espaço-tempo em fracção ínfima, como o folhear do livro sentido pelas próprias páginas. 

Ou pode ser um prémio do quotidiano. O privilégio de viver mergulhada em horizontes tão grandes que numa base de rotina me arrebata em gratidão e sincronia com a vida. 

Como todas as manhãs, na passagem para o trabalho, ver o Índico glorioso do cimo da Catembe.