segunda-feira, 29 de abril de 2013

Elipse



A forma comprimida não fazia adivinhar que era uma pessoa - que ali estava a dormir nas escadas. A manhã fria obrigou a esticar a camisete verde como a lona de uma tenda por todo o corpo possível, no limite da função imaginada; as estacas com 3 apoios na cabeça, joelhos e pés.

E assim para quem passava, na posição impossível e no vestuário reinventado, a manhã era fria pela primeira vez. Principalmente porque as restantes peças de roupa não corresponderam ao corpo que ficava por cobrir com a mesma flexibilidade, e deixaram o rabo nú.

terça-feira, 26 de março de 2013

Dos farrapos



Ruínas do Mundo?
Sou eu.
Culpas que carrego?
Dos outros também.
O traço é tão grosso,
que nos seus meandros,
não posso dizer,
que não sou 1 com tudo.

sexta-feira, 22 de março de 2013

Txopela Rastafarai

«Não cabo ? Cabo !» e desta forma o meu amigo condutor do tuc-tuc (txopela ou riquexó motorizado) declarou guerra à última tangente nos escassos 1000 metros da nossa viagem. 1000 metros é pouco mas é o suficiente para morrer.

Apesar do estilo Rasta-Rambo, o meu amigo condutor partilhou comigo, entre longos tragos de 'cigarro' como ter-se mudado para a Namaacha mudou a sua vida, principalmente os pulmões, porque «ninguém aguenta a poluição de Maputo».

Partilhou muitas outras coisas, demasiadas mesmo diria, principalmente porque tinha dificuldade de conversar sem olhar para mim, portanto na direcção oposta àquela em que nos deslocávamos - «tem toda a razão mas não me consigo comunicar sem olhar nos olhos».

«Os chapeiros são perigo !».


quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

A via

[Sobre 'Maniqueísmo'; sem rima.]

Na via,
a direita e a esquerda,
são a mesma via.

Polarizar para integrar,
Preconceber para conhecer.

Enquanto há inspiração,
não há motivo para vergonha
(da ignorância).

[Aliás, nunca há motivo,
para a vergonha nem para a culpa -
quem disse que já não estamos no Paraíso?]

Vamos ser espertos
e corajosos.

Se está perplexo,
volte para trás.
Na paralela abaixo.

Deixe-me a mim na minha via.

«Como a onça que segue, movida apenas pela alma que tem.»
Ruy Duarte de Carvalho

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Trabalha Moçambique


Nunca fui rica nem pobre mas lembro-me de olhar à volta, sentir que tinha menos e de me envergonhar de ter menos.

A única forma de não me render à inveja e à auto-comiseração foi racionalizar. Identificar equivalentes em termos de estima pessoal e transferindo os menos em mais:

«Não tenho isso mas tenho isto.» 

E se alguém me visse como pobre, que fizesse a gentileza de não me dizer.

Ninguém capitaliza sobre défices e nessa base fui-me definindo e “enriquecendo”. A miséria é impotência, o contrário é a “acção”.

É então com algum incómodo que vivo hoje num mundo que se refere a uma parte da sua população como 'pobre'; ou em superlativo: 'absolutamente pobre'. Um mundo solidário mas que se esqueceu de ser gentil.

A cadeia do discurso ganha vida própria e para quem a percorre até ao fim, espera-o a armadilha da indiscrição: um dia olhar alguém com quem irá falar e antes de tudo ver um pobre. A simplificação do conceito que seca o olhar e ofende o próximo na sua dignidade. Um próximo fundamentalmente idêntico nascido num contexto radicalmente diferente; na mesma grande e universal aventura do que é ser humano.

No país em que vivo são ricos os que dizem que são pobres. Os pobres estão na luta. A luta desenrascada, «assim mesmo», do seja como for. Dos dias sempre iguais, no esforço mais caro do mundo.

Venho aqui por isso para louvar o Moçambique que tenho aprendido a descobrir. O Moçambique que se espreme no chapa e estuda no ferry-bót. Que começa a circular com o nascer do sol para levar os filhos à escola, ir buscar água, lavar a roupa ou esperar só para no outro dia voltar a tentar. O Moçambique que aguenta, espera e desespera mas insiste.

A graça da peso que carregam como se fosse nada é a vitória. Suspensão da gravidade que outros pensam que a todos afecta por igual: cobrando a dignidade.

Força Moçambique. O futuro melhor é de quem o vê.

domingo, 22 de maio de 2011

Endireite-se para a esquerda


Apesar de não haver placas de sentido proibido (“minha senhora” – disse-me o polícia – “trata-se de um país do chamado do grupo em vias de desenvolvimento”) nem sabão para lavar as mãos depois de tirar as impressões digitais de todos os dedos ([“onde posso lavar as mãos?”] “Limpe à parede.”), no país em que vivo já se faz o registo digital da identidade.

Sentei-me para a foto. Tudo certo, feições a descoberto e boca fechada. Como a sala toda e o fotógrafo incluído, tinham um ar forensico, esforcei-me o mais que pude para me endireitar no sentido em que me indicavam. Até que o não me poder esforçar mais me fez pensar nas feições que se revelavam por inclinação não do rosto, mas do tronco: nenhuma.

Estava inclinada como a torre de Pisa quando reparei que a webcam estava torta.

sábado, 16 de abril de 2011

A praia da Catembe



«As coisas não mudam, nós é que mudamos.» 
Henry David Thoreau 

Adeus ao Mundo, que vou partir. Despeço-me do que conheço e viro no caminho, porque passou o tempo e o destino tem hora marcada. O rumo é o horizonte temido e eu não quero ir.

Na confusão, escorrego nas escadas e desço o lanço sem usar os pés. Ficam as nódoas e os nervos do medo. Todas as glândulas segregando a química do desconforto.

A maravilha da evidência que até no mais íntimo e adquirido somos passageiros é uma sombra negra na hora da partida. Não é que tudo passa, somos nós que estamos a passar. E eu ainda preciso que a vida me empurre aos rebolões pelas escadas abaixo.

Do lado de lá da baía de Maputo fica a Catembe. De Maputo não se nota mas da rural praia da Catembe o cenário é assombroso. Pés descalços tão perto de tantos pés bem calçados é um desconchavo que custa a encaixar em toda a parte mas na praia da Catembe os pés descalços estão na areia e a brisa é suave. O horizonte desconhecido em simples travessias de ferry-boat (lê-se ‘bot’) por 5 meticais.

Vou mergulhando pouco a pouco. No oceano de todas as despedidas.