sábado, 19 de julho de 2014

Ferry das 22:30







Ferry das 22:30 é o transporte escolar dos alunos dos cursos nocturnos.
Por dentro ajoelho em admiração de como o mundo é acima de tudo um espaço interior. De que outra forma a sala de passageiros do Mpfumu seria convidativa à disciplina dos TPCs ?
Á esquerda a caneta deita fumo de tão rapidamente se resolvem equações de 2º grau; à direita estuda-se a fisiologia dos dentes e da boca; e ainda mais à direita a estrutura da visão noturna é recitada sílaba por sílaba num mergulho tão profundo que só pode vir de dentro da própria retina.
Por um lado tem que ser, faltam poucas horas para o início de um novo dia e ainda é preciso dormir. Mas por outro:  ... caramba !
Se a Educação fosse uma guerra esta seria a sua gloriosa frente de batalha.

sexta-feira, 20 de junho de 2014

Primavera


«Um novo paradigma começa a ser notado, o paradigma do mundo vivo dos sujeitos em que o erro faz parte da verdade,  o preconceito prenuncia o conceito, a racionalidade não exclui a intuição ou a imaginação, a crença é o início da ciência, a linguagem é ser e a história é tempo presente.»

(Adolfo Yañez-Casal)

terça-feira, 20 de maio de 2014

A Catembe


«Mas acho que também aprendi, entretanto, a rir-me de mim mesmo, das minhas incompetências congénitas e do mau-feitio que neste mundo sou evidentemente o único a ter. E tem uns intervalos em que tudo parece ficar virginalmente vivável, bom e bonito, conforme pensa a onça quando, segundo Guimarães Rosa, não teme nada e vai, guiada só pela alma que tem.»
Ruy Duarte de Carvalho





Talvez motivada pela nova máquina fotográfica enviada de Lx, tenho andado pela Catembe assim, guiada só pela alma que tenho. E tem sido um intervalo em que a vejo virginalmente vivável, boa e bonita como se a estivésse a ver pela primeira vez. Tão próxima de Maputo, o tesouro só se vislumbra daqui: é que Maputo tem vista para a Catembe mas a Catembe tem vista para o mar.


quinta-feira, 6 de março de 2014

Helena

Fina como o capim, frágil como as flores do campo, Helena dá-me a mão.
Fala muito mal, pouco se entende. Fala com gestos feitos de lentidão.

Usa os sapatos trocados nos pés, a camisa vestida para trás
- com sorriso imperturbável faz com os ombros um «... tanto faz».

Não tem mãe, nem pai, vizinha, titia ou vóvó.
Helena do orfanato, tantas Helenas. Helena está só.




quarta-feira, 5 de março de 2014

O Grande Horizonte



Pode ser real ou uma paisagem interior. A percepção de um grande acerto nos olhos do meu filho. A sinfonia super alto nas matas do Gurué mas que só eu ouço.

É uma impressão acompanhada de vertigem, uma relação espaço-tempo em fracção ínfima, como o folhear do livro sentido pelas próprias páginas. 

Ou pode ser um prémio do quotidiano. O privilégio de viver mergulhada em horizontes tão grandes que numa base de rotina me arrebata em gratidão e sincronia com a vida. 

Como todas as manhãs, na passagem para o trabalho, ver o Índico glorioso do cimo da Catembe.






terça-feira, 12 de novembro de 2013

Osmose

«Antes poucos bens que muitas necessidades» aplicado à extorsão dificilmente se aguenta.

Mas a água vai sempre passar do meio de maior para o de menor concentração - de bens dos outros.

Mesmo que não seja uma membrana.

Mesmo que seja uma barragem coroada estratosfericamente.

Há-de rebentar.

Em nome da natureza, da físico-química e de deus.


quinta-feira, 3 de outubro de 2013

O Colosso



A negra gigante estava descalça no meio da noite e eu comecei a vê-la pelos pés. Vi-a com clareza cinematográfica.

Vi o pó do chão que passava para pó nos pés gradualmente. Vi a pele clara que sobressaía dos lados dos pés, que subia e desaparecia na pele escura da parte de cima. Vi as rugas da pele e vi a pele engrossar nos cantos que sobram onde as unhas se acomodam nos dedos.

Como se estivésse caída no chão comecei a levantar a cabeça e com a cabeça levantei o olhar. Vi a saia de capulana branca e vi que a camisa era branca também. A imobilidade do corpo poder-se-ia ter confundido com uma estátua mas não era. Era o tempo que estava parado.

Na sua proximidade podia sentir o volume da sua respiração e as gotas de vapor que dela emanavam adensadas pelo pó. Este corpo imenso na minha frente era mais pesado, mais vivo, mais presente do que ali era para mim própria. Mas só percebi quando lhe vi a cara.

- A velha negra colossal era eu.