Fina como o capim, frágil como as
flores do campo, Helena dá-me a mão.
Fala muito mal, pouco se entende.
Fala com gestos feitos de lentidão.
Usa os sapatos trocados nos pés,
a camisa vestida para trás
- com sorriso imperturbável faz com
os ombros um «... tanto faz».
Não tem mãe, nem pai, vizinha,
titia ou vóvó.
Helena do orfanato, tantas
Helenas. Helena está só.
quinta-feira, 6 de março de 2014
quarta-feira, 5 de março de 2014
O Grande Horizonte
Pode ser real ou uma
paisagem interior. A percepção de um grande acerto nos olhos do meu filho. A
sinfonia super alto nas matas do Gurué mas que só eu ouço.
É uma impressão
acompanhada de vertigem, uma relação espaço-tempo em fracção ínfima, como o folhear
do livro sentido pelas próprias páginas.
Ou pode ser um
prémio do quotidiano. O privilégio de viver mergulhada em horizontes tão
grandes que numa base de rotina me arrebata em
gratidão e sincronia com a vida.
Como todas as manhãs, na passagem para o trabalho, ver o Índico glorioso do cimo da Catembe.
terça-feira, 12 de novembro de 2013
Osmose
«Antes poucos bens que muitas necessidades» aplicado à extorsão dificilmente se aguenta.
Mas a água vai sempre passar do meio de maior para o de menor concentração - de bens dos outros.
Mesmo que não seja uma membrana.
Mesmo que seja uma barragem coroada estratosfericamente.
Há-de rebentar.
Em nome da natureza, da físico-química e de deus.
Mas a água vai sempre passar do meio de maior para o de menor concentração - de bens dos outros.
Mesmo que não seja uma membrana.
Mesmo que seja uma barragem coroada estratosfericamente.
Há-de rebentar.
Em nome da natureza, da físico-química e de deus.
quinta-feira, 3 de outubro de 2013
O Colosso
A negra gigante estava descalça no meio da
noite e eu comecei a vê-la pelos pés. Vi-a com clareza cinematográfica.
Vi o pó do chão que passava para pó nos pés
gradualmente. Vi a pele clara que sobressaía dos lados dos pés, que subia e desaparecia
na pele escura da parte de cima. Vi as rugas da pele e vi a pele engrossar nos cantos que sobram onde
as unhas se acomodam nos dedos.
Como se estivésse caída no chão comecei a
levantar a cabeça e com a cabeça levantei o olhar. Vi a saia de capulana
branca e vi que a camisa era branca também. A imobilidade do corpo poder-se-ia ter confundido
com uma estátua mas não era. Era o tempo que estava parado.
Na sua proximidade podia sentir o volume da
sua respiração e as gotas de vapor que dela emanavam adensadas pelo pó. Este
corpo imenso na minha frente era mais pesado, mais vivo, mais presente do que ali
era para mim própria. Mas só percebi quando lhe vi a cara.
- A velha negra colossal era eu.
- A velha negra colossal era eu.
quarta-feira, 31 de julho de 2013
Viva
A vida é bela,
a vida é grande.
A vida nunca é como se espera,
a vida coloca-se onde estamos,
a vida já é antes de ser certa.
A vida são os factos,
que nos libertam dos argumentos.
A vida respira-se,
a vida vive-se no tempo certo,
no único tempo que existe.
segunda-feira, 29 de abril de 2013
Elipse
A forma comprimida não fazia adivinhar que era
uma pessoa - que ali estava a dormir nas escadas. A manhã fria obrigou a
esticar a camisete verde como a lona de uma tenda por todo o corpo possível, no
limite da função imaginada; as estacas com 3 apoios na cabeça, joelhos e pés.
E assim para quem passava, na posição
impossível e no vestuário reinventado, a manhã era fria pela primeira vez.
Principalmente porque as restantes peças de roupa não corresponderam ao corpo que
ficava por cobrir com a mesma flexibilidade, e deixaram o rabo nú.
terça-feira, 26 de março de 2013
Dos farrapos
Ruínas do Mundo?
Sou eu.
Culpas que carrego?
Dos outros também.
O traço é tão grosso,
que nos seus meandros,
não posso dizer,
que não sou 1 com tudo.
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