sexta-feira, 22 de março de 2013
Txopela Rastafarai
Apesar do estilo Rasta-Rambo, o meu amigo condutor partilhou comigo, entre longos tragos de 'cigarro' como ter-se mudado para a Namaacha mudou a sua vida, principalmente os pulmões, porque «ninguém aguenta a poluição de Maputo».
Partilhou muitas outras coisas, demasiadas mesmo diria, principalmente porque tinha dificuldade de conversar sem olhar para mim, portanto na direcção oposta àquela em que nos deslocávamos - «tem toda a razão mas não me consigo comunicar sem olhar nos olhos».
«Os chapeiros são perigo !».
quarta-feira, 30 de janeiro de 2013
A via
[Sobre 'Maniqueísmo'; sem rima.]
Na via,
a direita e a esquerda,
são a mesma via.
Polarizar para integrar,
Preconceber para conhecer.
Enquanto há inspiração,
não há motivo para vergonha
(da ignorância).
[Aliás, nunca há motivo,
para a vergonha nem para a culpa -
quem disse que já não estamos no Paraíso?]
Vamos ser espertos
e corajosos.
Se está perplexo,
volte para trás.
Na paralela abaixo.
Deixe-me a mim na minha via.
quarta-feira, 7 de setembro de 2011
Trabalha Moçambique
Nunca fui rica nem pobre mas lembro-me de olhar à volta, sentir que tinha menos e de me envergonhar de ter menos.
A única forma de não me render à inveja e à auto-comiseração foi racionalizar. Identificar equivalentes em termos de estima pessoal e transferindo os menos em mais:
«Não tenho isso mas tenho isto.»
E se alguém me visse como pobre, que fizesse a gentileza de não me dizer.
Ninguém capitaliza sobre défices e nessa base fui-me definindo e “enriquecendo”. A miséria é impotência, o contrário é a “acção”.
É então com algum incómodo que vivo hoje num mundo que se refere a uma parte da sua população como 'pobre'; ou em superlativo: 'absolutamente pobre'. Um mundo solidário mas que se esqueceu de ser gentil.
A cadeia do discurso ganha vida própria e para quem a percorre até ao fim, espera-o a armadilha da indiscrição: um dia olhar alguém com quem irá falar e antes de tudo ver um pobre. A simplificação do conceito que seca o olhar e ofende o próximo na sua dignidade. Um próximo fundamentalmente idêntico nascido num contexto radicalmente diferente; na mesma grande e universal aventura do que é ser humano.
No país em que vivo são ricos os que dizem que são pobres. Os pobres estão na luta. A luta desenrascada, «assim mesmo», do seja como for. Dos dias sempre iguais, no esforço mais caro do mundo.
Venho aqui por isso para louvar o Moçambique que tenho aprendido a descobrir. O Moçambique que se espreme no chapa e estuda no ferry-bót. Que começa a circular com o nascer do sol para levar os filhos à escola, ir buscar água, lavar a roupa ou esperar só para no outro dia voltar a tentar. O Moçambique que aguenta, espera e desespera mas insiste.
A graça da peso que carregam como se fosse nada é a vitória. Suspensão da gravidade que outros pensam que a todos afecta por igual: cobrando a dignidade.
Força Moçambique. O futuro melhor é de quem o vê.
domingo, 22 de maio de 2011
Endireite-se para a esquerda

Apesar de não haver placas de sentido proibido (“minha senhora” – disse-me o polícia – “trata-se de um país do chamado do grupo em vias de desenvolvimento”) nem sabão para lavar as mãos depois de tirar as impressões digitais de todos os dedos ([“onde posso lavar as mãos?”] “Limpe à parede.”), no país em que vivo já se faz o registo digital da identidade.
Sentei-me para a foto. Tudo certo, feições a descoberto e boca fechada. Como a sala toda e o fotógrafo incluído, tinham um ar forensico, esforcei-me o mais que pude para me endireitar no sentido em que me indicavam. Até que o não me poder esforçar mais me fez pensar nas feições que se revelavam por inclinação não do rosto, mas do tronco: nenhuma.
Estava inclinada como a torre de Pisa quando reparei que a webcam estava torta.
sábado, 16 de abril de 2011
A praia da Catembe
Adeus ao Mundo, que vou partir. Despeço-me do que conheço e viro no caminho, porque passou o tempo e o destino tem hora marcada. O rumo é o horizonte temido e eu não quero ir.
Na confusão, escorrego nas escadas e desço o lanço sem usar os pés. Ficam as nódoas e os nervos do medo. Todas as glândulas segregando a química do desconforto.
A maravilha da evidência que até no mais íntimo e adquirido somos passageiros é uma sombra negra na hora da partida. Não é que tudo passa, somos nós que estamos a passar. E eu ainda preciso que a vida me empurre aos rebolões pelas escadas abaixo.
Do lado de lá da baía de Maputo fica a Catembe. De Maputo não se nota mas da rural praia da Catembe o cenário é assombroso. Pés descalços tão perto de tantos pés bem calçados é um desconchavo que custa a encaixar em toda a parte mas na praia da Catembe os pés descalços estão na areia e a brisa é suave. O horizonte desconhecido em simples travessias de ferry-boat (lê-se ‘bot’) por 5 meticais.
Vou mergulhando pouco a pouco. No oceano de todas as despedidas.
sábado, 12 de fevereiro de 2011
As botas de Judas
Como se lá não chega, é difícil saber quantas andarão aí por calçar. Botas de segundo uso largadas em funções é porque ficaram na função a meio de cumprir o fim. Elas existem esquecidas.
Esta sexta encontrei um par. Tão perto de tantos pés bem calçados que nem dá para acreditar que estas estão ali.
Experimentei e ficaram-me boas.
segunda-feira, 24 de janeiro de 2011
Enterra a Minha Perna
"Carregai os fardos uns dos outros e assim cumprireis a lei de Cristo."
(Gálatas, 6:2)
«Enterra a minha perna porque são duas pessoas que pertencem ao meu desmembramento e tu és a outra. Cortaram-me a perna e eu quero-te no meu luto. A minha perna jaz ali no alguidar desde ontem, embrulhada no pano verde da sala de operações, ensopado no meu sangue. A servente do hospital não pode fazer mais nada e por isso tens que ser tu. O meu filho já tem a capulana preta. Enrola a perna na mortalha e vai enterrá-la. Não me faças esperar mais do que o ter ficado sem perna me vai adiar para sempre.»
E como se eu pudésse ter dúvidas resumiu:
«Aceita a culpa que nos ligou. Tu seguias livre do teu lado mas para me encontrar e agora o luto da minha perna é irreversível também na tua vida. Estamos juntos.»
Fui para o corredor do hospital e pedi ajuda por 100 meticais. «Alguém me ajude» e ajudaram-me, pedindo apenas as mínimas indicações. Com luvas e máscara, o Sr. Anónimo era o primeiro do nosso cortejo fúnebre até às fossas do Hospital. A primeira fossa estava cheia até acima e a segunda também, de modo que teve que ser assim mesmo, desenrascando ‘à maneira’, que foi colocar a perna no topo da pilha, a tampa da fossa por cima da perna e saltar até a tampa encaixar e fechar.
Pude então voltar à enfermaria de cirurgia:
«Já enterrei a tua perna e a tua lembrança vai ficar sempre comigo. De tão longe viémos para nos encontrarmos num segundo trágico. Não posso reparar mais nada mas posso ser testemunha e contar sempre tudo como foi.»