quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

A via

[Sobre 'Maniqueísmo'; sem rima.]

Na via,
a direita e a esquerda,
são a mesma via.

Polarizar para integrar,
Preconceber para conhecer.

Enquanto há inspiração,
não há motivo para vergonha
(da ignorância).

[Aliás, nunca há motivo,
para a vergonha nem para a culpa -
quem disse que já não estamos no Paraíso?]

Vamos ser espertos
e corajosos.

Se está perplexo,
volte para trás.
Na paralela abaixo.

Deixe-me a mim na minha via.

«Como a onça que segue, movida apenas pela alma que tem.»
Ruy Duarte de Carvalho

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Trabalha Moçambique


Nunca fui rica nem pobre mas lembro-me de olhar à volta, sentir que tinha menos e de me envergonhar de ter menos.

A única forma de não me render à inveja e à auto-comiseração foi racionalizar. Identificar equivalentes em termos de estima pessoal e transferindo os menos em mais:

«Não tenho isso mas tenho isto.» 

E se alguém me visse como pobre, que fizesse a gentileza de não me dizer.

Ninguém capitaliza sobre défices e nessa base fui-me definindo e “enriquecendo”. A miséria é impotência, o contrário é a “acção”.

É então com algum incómodo que vivo hoje num mundo que se refere a uma parte da sua população como 'pobre'; ou em superlativo: 'absolutamente pobre'. Um mundo solidário mas que se esqueceu de ser gentil.

A cadeia do discurso ganha vida própria e para quem a percorre até ao fim, espera-o a armadilha da indiscrição: um dia olhar alguém com quem irá falar e antes de tudo ver um pobre. A simplificação do conceito que seca o olhar e ofende o próximo na sua dignidade. Um próximo fundamentalmente idêntico nascido num contexto radicalmente diferente; na mesma grande e universal aventura do que é ser humano.

No país em que vivo são ricos os que dizem que são pobres. Os pobres estão na luta. A luta desenrascada, «assim mesmo», do seja como for. Dos dias sempre iguais, no esforço mais caro do mundo.

Venho aqui por isso para louvar o Moçambique que tenho aprendido a descobrir. O Moçambique que se espreme no chapa e estuda no ferry-bót. Que começa a circular com o nascer do sol para levar os filhos à escola, ir buscar água, lavar a roupa ou esperar só para no outro dia voltar a tentar. O Moçambique que aguenta, espera e desespera mas insiste.

A graça da peso que carregam como se fosse nada é a vitória. Suspensão da gravidade que outros pensam que a todos afecta por igual: cobrando a dignidade.

Força Moçambique. O futuro melhor é de quem o vê.

domingo, 22 de maio de 2011

Endireite-se para a esquerda


Apesar de não haver placas de sentido proibido (“minha senhora” – disse-me o polícia – “trata-se de um país do chamado do grupo em vias de desenvolvimento”) nem sabão para lavar as mãos depois de tirar as impressões digitais de todos os dedos ([“onde posso lavar as mãos?”] “Limpe à parede.”), no país em que vivo já se faz o registo digital da identidade.

Sentei-me para a foto. Tudo certo, feições a descoberto e boca fechada. Como a sala toda e o fotógrafo incluído, tinham um ar forensico, esforcei-me o mais que pude para me endireitar no sentido em que me indicavam. Até que o não me poder esforçar mais me fez pensar nas feições que se revelavam por inclinação não do rosto, mas do tronco: nenhuma.

Estava inclinada como a torre de Pisa quando reparei que a webcam estava torta.

sábado, 16 de abril de 2011

A praia da Catembe



«As coisas não mudam, nós é que mudamos.» 
Henry David Thoreau 

Adeus ao Mundo, que vou partir. Despeço-me do que conheço e viro no caminho, porque passou o tempo e o destino tem hora marcada. O rumo é o horizonte temido e eu não quero ir.

Na confusão, escorrego nas escadas e desço o lanço sem usar os pés. Ficam as nódoas e os nervos do medo. Todas as glândulas segregando a química do desconforto.

A maravilha da evidência que até no mais íntimo e adquirido somos passageiros é uma sombra negra na hora da partida. Não é que tudo passa, somos nós que estamos a passar. E eu ainda preciso que a vida me empurre aos rebolões pelas escadas abaixo.

Do lado de lá da baía de Maputo fica a Catembe. De Maputo não se nota mas da rural praia da Catembe o cenário é assombroso. Pés descalços tão perto de tantos pés bem calçados é um desconchavo que custa a encaixar em toda a parte mas na praia da Catembe os pés descalços estão na areia e a brisa é suave. O horizonte desconhecido em simples travessias de ferry-boat (lê-se ‘bot’) por 5 meticais.

Vou mergulhando pouco a pouco. No oceano de todas as despedidas.

sábado, 12 de fevereiro de 2011

As botas de Judas

As botas de Judas são as botas que ninguém quer calçar. Por isso se diz que elas ficaram perdidas nos sítios onde ninguém chega, porque não consegue ou porque não quer. Mas com franqueza, mais porque não quer do que porque não pode. Afinal, se o próprio dono ficou descalço...?

Como se lá não chega, é difícil saber quantas andarão aí por calçar. Botas de segundo uso largadas em funções é porque ficaram na função a meio de cumprir o fim. Elas existem esquecidas.

Esta sexta encontrei um par. Tão perto de tantos pés bem calçados que nem dá para acreditar que estas estão ali.

Experimentei e ficaram-me boas.

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Enterra a Minha Perna

"Carregai os fardos uns dos outros e assim cumprireis a lei de Cristo."

(Gálatas, 6:2)

«Enterra a minha perna porque são duas pessoas que pertencem ao meu desmembramento e tu és a outra. Cortaram-me a perna e eu quero-te no meu luto. A minha perna jaz ali no alguidar desde ontem, embrulhada no pano verde da sala de operações, ensopado no meu sangue. A servente do hospital não pode fazer mais nada e por isso tens que ser tu. O meu filho já tem a capulana preta. Enrola a perna na mortalha e vai enterrá-la. Não me faças esperar mais do que o ter ficado sem perna me vai adiar para sempre.»

E como se eu pudésse ter dúvidas resumiu:

«Aceita a culpa que nos ligou. Tu seguias livre do teu lado mas para me encontrar e agora o luto da minha perna é irreversível também na tua vida. Estamos juntos.»

Fui para o corredor do hospital e pedi ajuda por 100 meticais. «Alguém me ajude» e ajudaram-me, pedindo apenas as mínimas indicações. Com luvas e máscara, o Sr. Anónimo era o primeiro do nosso cortejo fúnebre até às fossas do Hospital. A primeira fossa estava cheia até acima e a segunda também, de modo que teve que ser assim mesmo, desenrascando ‘à maneira’, que foi colocar a perna no topo da pilha, a tampa da fossa por cima da perna e saltar até a tampa encaixar e fechar.

Pude então voltar à enfermaria de cirurgia:

«Já enterrei a tua perna e a tua lembrança vai ficar sempre comigo. De tão longe viémos para nos encontrarmos num segundo trágico. Não posso reparar mais nada mas posso ser testemunha e contar sempre tudo como foi.»

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

"Cidade 1985"

De manhã quando acordo em Maputo
o almoço é uma esperança.
Mãe tenho fome
marido tenho bicha
e mil malárias me disputando a vontade.

De manhã quando acordo em Maputo
o jantar é uma incerteza
o serviço uma militância política
do outro lado do sono incompleto
e o chapa-cem um regulado impiedoso
no quatro barra oitenta sem contra-argumento.

De manhã quando acordo em Maputo
o vizinho já candongou o que me roubou
a estomatologia não tem anestesia
a chuva abriu dialecticamente mais um buraco na estrada
e o conselho executivo continua desdentado de iniciativas.

De manhã quando acordo em Maputo
Porra para a vizinha que estoirou a torneira do rés-do-chão
Porra para o guarda que não ligou a bomba quando veio a água
Porra para os cem gramas de carne apodrecidos
no silêncio desenergético de Komatipoort
mais as ó eme sede de efes
e o soldado que ainda não ouviu dizer que os passeios são lugares públicos
e os fulanizados exploradores de outrora que se preparam para cuspir na tua campa, ó Mataca
às ordens de um Mouzinho boer.

De manhã quando me percorro em Maputo
enfio ominosamente o cérebro numa competentíssima paciência
desembainho felinamente mais uma mentira diplomática
e aguardo que a lucidez companheira me leia nas acácias em sangue
nos jacarandás estalando sob a sola epidérmica do povo
que este é ainda o eco estridente do Chai
até que Botha seja farmeiro e Mandela Presidente.

Então,
com a raiva intacta resgatada à dor
danço no coração um xigubo guerreiro
e clandestinamente soletro a utopia invicta.

À noite quando me deito em Maputo
não preciso de rezar.
Já sou herói.


Carlos Cardoso