sexta-feira, 12 de setembro de 2008

Toqueleque Maulana

O senso comum que me formou na consciência do bem fundamental que é a solidariedade, as leituras e exames em Lisboa, os filmes, as histórias que a minha avó contava do tempo em que na faixa pirítica os homens saiam para trabalhar nas minas com as lancheiras vazias, 1 mês de trabalho em São Tomé e Príncipe: nada me preparou para o que vim a encontrar. Surpresa após surpresa estou no Niassa, tenho que prestar sempre muita atenção e registar tudo no caderno de campo. Eu sou a branca, com ethoco (casa) que sai da mala (tenda), tem sapatilha boa e ninguém quer saber o que é que me traz ali. O 'Desenvolvimento' da minha fantasia não existe e na aldeia desperto na aferição do seu grau de pureza.
Questionário nº24, 9-7-2007, Namanha
Toqueleque Maulana, cerca de 80 anos, Muçulmano, Macua
Numa esteira debaixo da mangueira do pátio da escola de Namanha, o meu interlocutor esforça-se por perceber as perguntas que lhe faço. Antes de cada resposta traduzida há a resposta em Macua que deixa a plateia em estado de hilariedade absoluta e eu tenho a certeza que estou a ser fortemente gozada. Ele vive sózinho e como a idade tinha sido implacável na sua mobilidade tento perceber no meio da confusão e da galhofa de que forma a rede social está a funcionar no seu amparo:
- E de milho como está?
- Está bem.
- Mas fez milho este ano?
- Eu fiz.
- Então e tirou quanto?
- Um cesto.
- Um cesto é pouco, vai fazer como quando faltar?
- Quando faltar vou comer menos.
Só depois da resposta me apercebi da brutalidade da pergunta. O sorriso, o tom de voz e o olhar perfeitamente alinhados no momento em que a minha verve perscrutante colapsou e finalmente o reconheci. Estávamos sentados na esteira mas podia ser um sofá. Toqueleque no sofá.