sábado, 13 de setembro de 2008

Filomena



O prato de ‘chima’ atribuído a cada refeição era doseado para um colectivo de três adultos e uma criança. Tendo eu percebido que este colectivo era alargado a mais uma criança nos dias em que o apetite me permitia terminar mais cedo, passei a terminar mais cedo com mais frequência. A Filomena, que vigiava o menor dos meus gestos a todos os momentos do dia, inclusivamente estando de costas, suspeitou da minha crescente frugalidade e interpretou-a no pior sentido, como desprezo declarado à sua comida. Percebi o mal entendido que se gerava mas não podia evitar sentir-me gulosa quando comia a partir de um certo ponto. Eram simplesmente demasiadas intenções sobrepostas à minha para que me pudesse abstrair. A minha expressão amiga passou a ser o “saciei” dito o mais displicentemente que os meus nervos permitiam negociar. Houve um dia que deve ter sido demais para ela e reparando que eu me preparava para afastar do prato, com a boca carregada de comida e ironia, fulminou-me com escatologia irrepreensível:
- Terminou?
- Sim.
- Porquê?
- Saciei.
- Saciou? Eu não. Eu hoje vou comer até sair cócó.
A todas as refeições a Filomena cultivava o empanturramento. Era uma alarvidade que a princípio encarava com humor mas que sempre me intrigou. Afinal era dela que ouvia os relatos mais vívidos da última fome passada na aldeia em 2004 e não podia deixar de entrever nos excessos de hoje a falta de outros tempos; a reedição de horas de grande angústia numa exuberante toma de alimentos. Se a visita tivesse sido mais curta teria eu visto a escassez num corpo com excesso de peso?