domingo, 26 de fevereiro de 2017

Shiva


Nenhuma religião me desafia tanto a imaginação e o sentido que não consigo retirar dela, quanto o Hinduísmo; e de todos os seus deuses, Shiva. Claro, deuses de pele azul ou com cara de elefante ou macaco também são mistérios mas não tão urgentes de esclarecer quanto a santidade da destruição. Um deus que destrói e eu vou acender-lhe uma vela e pedir o quê: que um ciclone atinja a minha loja ? que a crise económica feche o banco onde tenho o meu dinheiro guardado ? O mistério deste culto acompanhou-me desde sempre. O deus que aos meus olhos cristãos tem um aspecto diabólico.

Na minha própria religião também nunca consegui dizer com desprendimento e convicção «seja feita a Tua vontade». Qual vontade ? e se ocorrer uma divergência de interesses ? A minha devoção a deus e à vida sempre teve um limiar que é a eminência da catástrofe. Uma fé sem fé de que outro plano seja mais completo do que aquele que aqui e agora visualizo e entendo. Uma resistência ao movimento.

Mas a vida é infinita apenas na sua repetição, como uma centrifugadora separando o suco do bagaço e pródiga em oportunidades para entendermos a diferença entre um e outro. Pelo menos em oportunidades para mim. «Se estiveres a passar pelo inferno, continua» como dizem que dizia Winston Churchill, o que para mim sempre foi algo a evitar. Só que o bom às vezes é mau e o mau, bom. O que significa querer o bom quando o bom for tentativa de preservação a todo o custo ? Não somos uma pedra imóvel no chão; somos um asteróide que entra na Terra a toda a velocidade e se consome no céu estrelado da noite com um clarão. Não existimos para o bom mas para o extraordinário.

E é quando me vejo no olho do furacão de mais uma mudança de escritório, a terceira em cinco anos, desta vez agravada por uma mudança parcial de residência. Uma mudança de escritório em Moçambique, onde as condições são lentamente angariadas e rapidamente perdidas a cada nova mudança, particularmente agora, mudando de Maputo para o meio rural (Salamanga, a apenas a 60 km de distância da capital do país mas tão profundamente rural como qualquer outro lugar em Moçambique a mais de 5 km da Assembleia da República). E no meio do cansaço, frustração e vontade de que fosse diferente penso em Shiva e na oportunidade de renovação e sinto-me grata por testemunhar no caos um movimento que anima a vida independentemente de mim; grata por sentir que apesar das minhas limitações não há nada que eu possa estragar irremediavelmente; e grata a Shiva por garantir que de uma forma ou outra estarei sempre na rota da renovação e do extraordinário. A isso posso acender-lhe uma vela – no templo de Salamanga.