quarta-feira, 25 de março de 2009

Lucky Dube

A primeira vez que ouvi Lucky Dube foi em Cuamba. Lá ía eu por meio de uma das suas 3 grandes alamedas empoeiradas tentar desenrascar uma papaia que não estivésse podre ou verde contra todas as probabilidades uma vez que já estávamos no entardecer. Esse era o cenário: Cuamba ao final do dia, a magnífica luz dourada do pôr-do-sol na estação seca a menos de 15º de latitude - adensada pelo pó - e uma tarefa de moderada responsabilidade que me dava um destino sem me absorver. A cada 20 metros o som que saturava o ar renovava-se, à medida do despique impossível entre negócios praticamente iguais. Mas houve 20 metros em que as colunas debitavam alguma coisa um pouco diferente e os meus passos desacelararam. Eu estava muito curiosa mas eu fiquei também embalada. Naquele crivo não consegui passar e lá fui espreitar o que a loja vendia. O dono da loja não demonstrou grande simpatia na minha entrada o que achei natural, afinal o meu interesse naquela tarde eram as papaias e deve ter sido óbvio que não tinha entrado ali para as comprar. Entrei com ar de branca em áfrica pronto ("que som é este que me chama ao entardecer...?"), mas não me acanhei. Perguntei mesmo "olá, o senhor não é moçambicano pois não?". A cara de parva deve ter ajudado porque ele respondeu; era nigeriano. Tentei conter o fascínio simulando completo desinteresse pela novidade "ah, é nigeriano". Mas fiquei realmente tentada a dar voz à surpresa que me assaltou naquele momento: "nigeriano?! e isso é normal?! um nigeriano aqui? há mais amigos seus da áfrica ocidental por cá ou o seu é um caso isolado?... sempre pensei que a selva do congo constituísse uma fronteira natural para vocês...", afinal o que poderia haver de apelo ali no Niassa que o tenha feito vir de tão longe? Tudo perguntas que lá resisti a que ficassem sem resposta mas os óculos de plástico também já estavam todos vistos e o momento podia começar a ficar tenso. Tive que abrir mão. - E a música que está a dar o que é? - Lucky Dube. Agradeci, desejei boa tarde e tentei não voltar a passar lá perto não fosse ele achar que eu era esquisita.