quinta-feira, 22 de junho de 2017

Banho de balde





Na gíria da classe, nada diz de forma mais directa que se está a falhar na carreira de expatriado em África quanto viver numa casa onde a infraestrutura disponível para o banho seja o balde e o caneco. Considerando porém a probabilidade de se encontrar um chuveiro plenamente funcional em Moçambique e o facto de tomar banho de balde não ter problema nenhum, acho o medo exagerado.

O balde e o caneco oferecem solução para dois tipos de problemas: a casa de banho não tem água canalizada; ou, a casa de banho tem água canalizada mas não tem água quente. A minha casa de banho responde pela segunda limitação.

Na aldeia da minha mãe e por falta de água canalizada, os banhos dos verões de infância foram primeiro nos alguidares de zinco (enquanto lá coubémos) e depois debaixo do chuveiro de balde – uma adaptação feita ao balde, que permite dispensar o caneco simulando o chuveiro tradicional, apenas com uma quantidade de água limitada ao volume do balde. Banho de balde, férias e tardes quentes de verão eram no fundo experiências intercambiáveis na memória de um tempo e espaço real mas para sempre imersas numa neblina de utopia.

Depois – muito depois – apanhei um voo intercontinental directo de 20 horas (daqueles tão longos que o avião tem que parar para reabastecer) para a Indonésia e durante 2 meses fui acolhida em casas de todos os tipos, transversais a famílias com poder de compra diferenciado por até duas ordens de grandeza; e em nenhuma delas encontrei uma casa de banho equipada com chuveiro. As casas de banho têm normalmente um tanque num dos cantos de onde se retira a água directamente, pelo que o banho de balde lá é tecnicamente um banho de caneco. Na primeira noite em Bogor não percebi bem como iria fazer porque além do tanque não existia nenhuma outra indicação física do lugar onde consumar o banho e atirar-me para dentro do tanque pareceu-me um grande desperdício de água e remotamente louco. O meu olhar despreparado não me permitiu reconhecer o ralo discretamente posicionado ao lado do tanque e o ligeiro declive que acometia todo o chão da casa de banho; pelo que achei que a única chance de não molhar a casa de banho seria fazer pontaria à sanita, o que falhei redondamente. Saí da casa de banho bastante envergonhada a pedir uma esfregona através de gestos e mesmo depois de terem percebido que eu queria limpar o chão continuaram sem perceber porquê.

Talvez deva o desprendimento de chamar até hoje a falta de condições de aventura, por nunca ter vivido com condições muito diferentes. Num raciocício epicuriano, considero de forma aproximada que a felicidade dispara com a possibilidade de tomar um banho e depois talvez de ligeiramente a nada, com o tipo de banho especificamente disponível.

A verdade é que (cada vez que aterro em casa sinto que nunca de lá saí e) cada vez que aterro em Moçambique sinto a novidade de quem chega pela primeira vez. Mesmo que sejam as condições em que vivo durante cerca de 330 dias no ano e que alguns desses dias sejam de existência na rotina mais descompensadora, o banho de balde nunca me parece a cereja no topo de um bolo catastrófico. Diz-me acima de tudo que escolhi Moçambique para viver com expectativas adequadas.