Na gíria da
classe, nada diz de forma mais directa que se está a falhar na carreira de
expatriado em África quanto viver numa casa onde a infraestrutura disponível
para o banho seja o balde e o caneco. Considerando porém a probabilidade de se
encontrar um chuveiro plenamente funcional em Moçambique e o facto de tomar
banho de balde não ter problema nenhum, acho o medo exagerado.
O balde e o
caneco oferecem solução para dois tipos de problemas: a casa de banho não tem
água canalizada; ou, a casa de banho tem água canalizada mas não tem água
quente. A minha casa de banho responde pela segunda limitação.
Na aldeia da
minha mãe e por falta de água canalizada, os banhos dos verões de infância
foram primeiro nos alguidares de zinco (enquanto lá coubémos) e depois debaixo
do chuveiro de balde – uma adaptação feita ao balde, que permite dispensar o
caneco simulando o chuveiro tradicional, apenas com uma quantidade de água
limitada ao volume do balde. Banho de balde, férias e tardes quentes de verão
eram no fundo experiências intercambiáveis na memória de um tempo e espaço real mas para
sempre imersas numa memória vaga de paraíso.
Depois – muito depois – na Indonésia, durante 2 meses fui acolhida em casas de todos os tipos, transversais a famílias com poder de compra diferenciado por até duas ordens de grandeza; e em nenhuma delas encontrei uma casa de banho equipada com chuveiro. As casas de banho têm normalmente um tanque num dos cantos de onde se retira a água directamente, pelo que o banho de balde lá é tecnicamente um banho de caneco. Na primeira noite em Bogor não percebi bem como iria fazer porque além do tanque não existia nenhuma evidência indicando o lugar onde consumar o banho e atirar-me para dentro do tanque pareceu-me remotamente louco. O olhar despreparado não me permitiu reconhecer o ralo discretamente posicionado ao lado do tanque e o ligeiro declive que acometia todo o chão da casa de banho; pelo que achei que a única chance de não molhar a casa de banho seria fazer pontaria à sanita e apesar de enorme esforço falhei redondamente. Saí da casa de banho bastante envergonhada a pedir uma esfregona por gestos e mesmo depois de terem percebido que eu queria limpar o chão continuaram sem perceber porquê.
Talvez deva
o desprendimento de chamar até hoje a falta de condições de aventura, por nunca
ter vivido com condições muito diferentes. Num raciocício epicuriano, considero
de forma aproximada que a felicidade dispara com a possibilidade de tomar um banho
e depois talvez de ligeiramente a nada, com o tipo de banho especificamente
disponível.
A verdade é
que de cada vez que
aterro em Moçambique sinto a novidade de quem chega pela primeira
vez. Mesmo que sejam as condições em que vivo durante cerca de 330 dias no ano
e que alguns desses dias sejam de existência na rotina mais descompensadora, o
banho de balde nunca me parece a cereja no topo de um bolo catastrófico. Diz-me
acima de tudo que escolhi Moçambique para viver com expectativas adequadas.