quarta-feira, 22 de novembro de 2017

Mau Agoiro



Ensinam-nos que as sombras anunciam as sombras, como se a vida e a morte não se pudéssem misturar no mesmo dia. Como se a vida não contivésse a morte e a morte a vida. Quod vos estis, nos fuimos: quod nos sumus, vos eritis. Esta foi uma lição que o dia 19 de Outubro de 1988 me ensinou.

Até às 20 foi um dia como as outras segundas, quartas e sextas, jantar primeiro e aula de música depois. A terminar o jantar o ritual costumeiro de descascar a fruta em quartos (maçã ou pêra), para ser entregue em dribles no ar, a mim e à minha irmã, espetada no talher que estivésse à mão. Quarto por quarto, todos os dias, o jogo da sobremesa era sempre o mesmo e o efeito também, que era fazer-nos rir e lembrar-nos que com todas as contingências éramos uma família feliz. Disso aliás também me andavam a fazer recordar muito nas fichas de início do ano lectivo que nunca tinha preenchido, porque para mim era também o início da Escola Preparatória. Nas fichas, além do nome e idade devíamos preencher também a composição do agregado familiar e ao fim da 3ª ficha (preenchíamos uma por disciplina) a constatar que de facto tinha um agregado familiar completo, não conseguia evitar sentir-me sortuda por isso. «Tenho pai, tenho mãe, tenho irmã, tenho sorte».

Mas depois das 20 o plano começou a inclinar. A aula de música era na Liga dos Amigos de Queluz, que ocupava um chalet periclitante de 1919. Sabíamos todos da sua frágil condição e instintivamente moderávamos a nossa explosividade infantil ao subir ao 1º piso, não fôssemos desabar com as tábuas do chão e o piano em cima da cabeça da D. Amélia, que na secretaria da entrada se entregava santamente ao processamento das mensalidades e a outras tarefas de repetição. Nessa noite, a novidade que a decrepitude do nosso chalet nos trouxe, era a falta de luz na casa-de-banho, da qual pretendia fazer uso. Entrei tentando ajustar os olhos à penumbra e pensei que com uma fresta da porta aberta para a luz do corredor, conseguiria ao mesmo tempo a privacidade e luz suficiente para fazer tudo o que tinha para fazer. Foi nessa situação de tensão entre a luz e as trevas e o zénite da sanita em que não pretendia tocar de forma nenhuma, que entrevi ali mesmo no chão, no ponto médio triangulado a partir da posição dos meus pés, posicionado com rigor maçónico, um pequeno cócó da escala dos meus que terminava com uma pinta. Tenho a imagem dessa natureza morta tão clara até hoje que a poderia pintar. Alguém como eu, calculando aflitivamente a posição da sanita para não ter que se sentar, tinha falhado; e no que para mim foi uma certeza, saiu na mesma cegueira em que entrou, acreditando ter acertado. Reentrei na aula num pranto de gargalhadas e lágrimas que me via incapaz de conter, contangiando por perímetro de influência a minha amiga Rita, os colegas e a própria professora, que se viu forçada a interromper a aula para resolver a situação e antecipar-se aos pedidos para ir à casa-de-banho que se repetiam consecutivamente, permitindo de uma vez por todas à classe testemunhar a involuntária e cómica instalação.

Dali até a casa as gargalhadas foram uma maré a subir, recuando em cada ondulação apenas para chegar mais longe. Contagiei também o meu pai que me ía buscar e que também nunca mais se esqueceu porque passados 10 minutos de termos chegado a casa, por volta das 21, a minha mãe teve um derrame cerebral massivo e morreu. Talvez quando a maré do espaço-tempo começou a descer.

Qual é o som antes da explosão ? Para mim foi o silêncio absoluto em torno do qual ficaram a gravitar para sempre as imagens, sons e palavras que de tempos a tempos me invadem numa vertigem de náusea.

Talvez a única medida universal da vida seja a intensidade. Se «há quem viva sem dar por nada» e «há quem morra sem tal saber» resta-me o consolo de saber tudo para sempre (o sempre que para mim pode valer) do dia em que a minha mãe morreu. Até que teve num episódio delirante e escatológico o seu anúncio enquanto facto existencial total.

quinta-feira, 22 de junho de 2017

Banho de balde





Na gíria da classe, nada diz de forma mais directa que se está a falhar na carreira de expatriado em África quanto viver numa casa onde a infraestrutura disponível para o banho seja o balde e o caneco. Considerando porém a probabilidade de se encontrar um chuveiro plenamente funcional em Moçambique e o facto de tomar banho de balde não ter problema nenhum, acho o medo exagerado.

O balde e o caneco oferecem solução para dois tipos de problemas: a casa de banho não tem água canalizada; ou, a casa de banho tem água canalizada mas não tem água quente. A minha casa de banho responde pela segunda limitação.

Na aldeia da minha mãe e por falta de água canalizada, os banhos dos verões de infância foram primeiro nos alguidares de zinco (enquanto lá coubémos) e depois debaixo do chuveiro de balde – uma adaptação feita ao balde, que permite dispensar o caneco simulando o chuveiro tradicional, apenas com uma quantidade de água limitada ao volume do balde. Banho de balde, férias e tardes quentes de verão eram no fundo experiências intercambiáveis na memória de um tempo e espaço real mas para sempre imersas numa neblina de utopia.

Depois – muito depois – apanhei um voo intercontinental directo de 20 horas (daqueles tão longos que o avião tem que parar para reabastecer) para a Indonésia e durante 2 meses fui acolhida em casas de todos os tipos, transversais a famílias com poder de compra diferenciado por até duas ordens de grandeza; e em nenhuma delas encontrei uma casa de banho equipada com chuveiro. As casas de banho têm normalmente um tanque num dos cantos de onde se retira a água directamente, pelo que o banho de balde lá é tecnicamente um banho de caneco. Na primeira noite em Bogor não percebi bem como iria fazer porque além do tanque não existia nenhuma outra indicação física do lugar onde consumar o banho e atirar-me para dentro do tanque pareceu-me um grande desperdício de água e remotamente louco. O meu olhar despreparado não me permitiu reconhecer o ralo discretamente posicionado ao lado do tanque e o ligeiro declive que acometia todo o chão da casa de banho; pelo que achei que a única chance de não molhar a casa de banho seria fazer pontaria à sanita, o que falhei redondamente. Saí da casa de banho bastante envergonhada a pedir uma esfregona através de gestos e mesmo depois de terem percebido que eu queria limpar o chão continuaram sem perceber porquê.

Talvez deva o desprendimento de chamar até hoje a falta de condições de aventura, por nunca ter vivido com condições muito diferentes. Num raciocício epicuriano, considero de forma aproximada que a felicidade dispara com a possibilidade de tomar um banho e depois talvez de ligeiramente a nada, com o tipo de banho especificamente disponível.

A verdade é que (cada vez que aterro em casa sinto que nunca de lá saí e) cada vez que aterro em Moçambique sinto a novidade de quem chega pela primeira vez. Mesmo que sejam as condições em que vivo durante cerca de 330 dias no ano e que alguns desses dias sejam de existência na rotina mais descompensadora, o banho de balde nunca me parece a cereja no topo de um bolo catastrófico. Diz-me acima de tudo que escolhi Moçambique para viver com expectativas adequadas.


quinta-feira, 20 de abril de 2017

O Vazio



Sem sabor, nem cheiro, nem expectativa. O dia perfeito de Primavera no 5º andar de um prédio, sem nada para fazer ou alguém a quem visitar. O telefone quando não toca. Existir, mas fora da rede social.

Trabalhar arduamente sem prazo de entrega. Sentir a fome esganada e começar pela maçã, querer o hambúrguer e comer a sopa. O tanque das sensações antes de encher. O momento antes do escape, antes de ceder ao reflexo da distração.

O fim de tudo e o princípio de tudo, desde que escolha não fazer do tudo, alguma coisa.