Toqueleque no Sofá
"Da minha aldeia vejo quanto da terra se pode ver no Universo"
sexta-feira, 23 de outubro de 2020
sábado, 10 de março de 2018
Mistakes
A travessia de Maputo para a Catembe é curta mas a
distância no ferry cumpre-se a uma velocidade muito lenta. De modo que se conversa e se
ouvem conversas. Numa dessas conversas partilharam comigo os planos para abrir
uma barraca* e que para a barraca dar certo, o segredo era ter ao balcão uma moça
jovem, apelativa mas que já tivésse alguma experiência de vida, nomeadamente
experiências tristes. «Alguém que tenha já cometido alguns mistakes» e eu sorri
a pensar «alguém como eu».
Infelizmente o feminismo falha em capturar a beleza da
renúncia de uma posição de reinvindicação em nome de um amor. O corpo do
manifesto feminista é um corpo de luta mais do que um corpo de dádiva. E pasmei
da ironia de um jovem empresário de repente entender melhor esta mulher e que
desse entender venha uma nova subjugação.
Amar nunca pode ser um mistake.
*barraca é o termo que se usa para uma tasca de construção precária, em alvenaria ou totalmente em zinco
sexta-feira, 15 de dezembro de 2017
Prerrogativas e circunstâncias
Dados da vida
Lançados no ar
Chances perdidas
Dos ver acertar
Prerrogativas
E vida de azar
Caminho certo
Que acerto a falhar
Glórias vazias
Plena esperança
Aleatórias
As circunstâncias
quarta-feira, 22 de novembro de 2017
Mau Agoiro
Ensinam-nos que
as sombras anunciam as sombras, como se a vida e a morte não se pudéssem misturar
no mesmo dia. Como se a vida não contivésse a morte e a morte a vida. Quod vos estis, nos fuimos: quod nos sumus,
vos eritis. Esta foi uma lição que o dia 19 de Outubro de 1988 me ensinou, que entre a vida e a morte não existe nada que separe.
Até às 20 foi um
dia como as outras segundas, quartas e sextas, jantar primeiro e aula de música
depois. A terminar o jantar o ritual de descascar a fruta em quartos
(maçã ou pêra), para a dar a caçar em dribles no ar, espetada no talher que estivésse à mão. Quarto por quarto, todos os dias, o
jogo da sobremesa era o mesmo e o efeito também, que era fazer-nos rir e
lembrar-nos que éramos felizes. Disso
aliás também me andavam a fazer recordar nas fichas de início do ano
lectivo que nunca tinha preenchido, porque para mim era também o início da
Escola Preparatória. Nas fichas, além do nome e idade, morada etc devíamos preencher também
a composição do agregado familiar e ao fim de algumas preenchidas (preenchíamos uma por
disciplina), não conseguia evitar sentir-me sortuda. «Tenho pai,
tenho mãe, tenho irmã, tenho tudo».
Depois das 20
o plano começou a inclinar. A aula de música era na Liga dos Amigos de Queluz,
que ocupava um chalet periclitante de 1919 (estava escrito sobre a porta). Sabíamos todos da sua frágil
condição e instintivamente moderávamos a explosividade própria da idade ao subir
ao 1º piso, não fôssemos desabar com as tábuas do chão e o piano em cima da cabeça da D.
Amélia - que na secretaria da entrada se entregava santamente ao processamento
das mensalidades e outras tarefas de repetição. Nessa noite, a novidade que a
decrepitude do chalet trazia, era a falta de luz na casa-de-banho, da
qual pretendia fazer uso. Entrei tentando ajustar os olhos à penumbra e pensei
que com uma fresta da porta aberta para a luz do corredor, conseguiria ao mesmo tempo a privacidade e luz suficiente para fazer
tudo o que tinha para fazer. Foi nessa situação de tensão entre a luz e as
trevas e o zénite da sanita (na qual não pretendia tocar de forma nenhuma) que
entrevi ali mesmo no chão, no ponto médio triangulado a partir da posição dos
meus pés, posicionado com rigor maçónico, um pequeno cócó da escala dos meus
que terminava com uma pinta. Tenho a imagem dessa natureza morta tão clara que a poderia desenhar. Alguém como eu, calculando aflitivamente a posição
da sanita para não ter que se sentar, tinha falhado; e no que para mim foi uma
certeza, saiu da casa-de-banho acreditando ter acertado. Reentrei na aula a tentar conter as gargalhadas mas sem conseguir, contangiando por perímetro de influência a
minha amiga Rita, os colegas e a própria professora; que se viu forçada a interromper
a aula para resolver a situação, permitindo à turma testemunhar de uma vez por todas a involuntária e cómica instalação.
Dali até a casa
contagiei também o meu pai, que nunca mais se esqueceu porque passado pouco tempo de termos chegado a minha mãe teve um derrame cerebral massivo ao qual não veio a sobreviver.
A justaposição destes dois eventos extremos e extraordinários deixou-nos o problema de os reconciliarmos com o acaso. Houve um momento que mudou tudo para sempre mas da forma que o vivemos, o resto das nossas vidas não começou em 0, começou em t-0. Uma contagem regressiva hilariante, surreal, sinistra. Não falámos muito mais sobre isto mas o suficiente para saber que a vida se explicou da mesma forma para nós os dois.
quinta-feira, 22 de junho de 2017
Banho de balde
Na gíria da
classe, nada diz de forma mais directa que se está a falhar na carreira de
expatriado em África quanto viver numa casa onde a infraestrutura disponível
para o banho seja o balde e o caneco. Considerando porém a probabilidade de se
encontrar um chuveiro plenamente funcional em Moçambique e o facto de tomar
banho de balde não ter problema nenhum, acho o medo exagerado.
O balde e o
caneco oferecem solução para dois tipos de problemas: a casa de banho não tem
água canalizada; ou, a casa de banho tem água canalizada mas não tem água
quente. A minha casa de banho responde pela segunda limitação.
Na aldeia da
minha mãe e por falta de água canalizada, os banhos dos verões de infância
foram primeiro nos alguidares de zinco (enquanto lá coubémos) e depois debaixo
do chuveiro de balde – uma adaptação feita ao balde, que permite dispensar o
caneco simulando o chuveiro tradicional, apenas com uma quantidade de água
limitada ao volume do balde. Banho de balde, férias e tardes quentes de verão
eram no fundo experiências intercambiáveis na memória de um tempo e espaço real mas para
sempre imersas numa memória vaga de paraíso.
Depois – muito depois – na Indonésia, durante 2 meses fui acolhida em casas de todos os tipos, transversais a famílias com poder de compra diferenciado por até duas ordens de grandeza; e em nenhuma delas encontrei uma casa de banho equipada com chuveiro. As casas de banho têm normalmente um tanque num dos cantos de onde se retira a água directamente, pelo que o banho de balde lá é tecnicamente um banho de caneco. Na primeira noite em Bogor não percebi bem como iria fazer porque além do tanque não existia nenhuma evidência indicando o lugar onde consumar o banho e atirar-me para dentro do tanque pareceu-me remotamente louco. O olhar despreparado não me permitiu reconhecer o ralo discretamente posicionado ao lado do tanque e o ligeiro declive que acometia todo o chão da casa de banho; pelo que achei que a única chance de não molhar a casa de banho seria fazer pontaria à sanita e apesar de enorme esforço falhei redondamente. Saí da casa de banho bastante envergonhada a pedir uma esfregona por gestos e mesmo depois de terem percebido que eu queria limpar o chão continuaram sem perceber porquê.
Talvez deva
o desprendimento de chamar até hoje a falta de condições de aventura, por nunca
ter vivido com condições muito diferentes. Num raciocício epicuriano, considero
de forma aproximada que a felicidade dispara com a possibilidade de tomar um banho
e depois talvez de ligeiramente a nada, com o tipo de banho especificamente
disponível.
A verdade é
que de cada vez que
aterro em Moçambique sinto a novidade de quem chega pela primeira
vez. Mesmo que sejam as condições em que vivo durante cerca de 330 dias no ano
e que alguns desses dias sejam de existência na rotina mais descompensadora, o
banho de balde nunca me parece a cereja no topo de um bolo catastrófico. Diz-me
acima de tudo que escolhi Moçambique para viver com expectativas adequadas.
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