sábado, 17 de janeiro de 2015

Viagem de Natal



Depois de 5 anos a olhar para o Mapa e a pensar que havia todo um país pela frente dia 23 de Dezembro de 2014 fiz-me finalmente à estrada. O destino era a Consoada na Alta Zambézia mas o Grande Objectivo era percorrer os Kilómetros pelo Meio. 

Fiquei grossa de cansaço, virada do avesso e nos últimos dias abandonando totalmente qualquer esforço de gerir a má-disposição. Foram 6000 km em 12 dias o que subtraindo 3 dias de paragem e os 950 km percorridos nos 4 dias de passeio pela Província Amada dá a média muito próxima da realidade de cada um dos dias restantes: 1010 km/dia. Eram primeiro 3 horas e só mais 150 km até à Paragem para Esticar as Pernas, 300 até ao Cruzamento Estratégico e finalmente encontramos a placa que indica que o fim da jornada se aproxima: só faltam mais 250 km. 

A estrada era só por si o Destino. O resto eram as muitas Saudades. Das nuvens espessas, altas e de vários tipos no mesmo pedaço de céu; da chuva convectiva de verdade que ilumina as nuvens de tempestade com clarões como se fossem balões de papel; das estradas que passam na cota mais elevada e deixam o horizonte na linha dos sonhos. Saudades também de rever a Ilha Onde o Tempo Parou e da Baía Mais Linda, onde tomo banho com os embondeiros ao fundo.

Antes de terminar a viagem houve ainda espaço para as Descobertas e de todas a do Centro do País. Tinham-me jurado que já tinha visto há muito tempo o verde mais intenso do País porque tinha vivido nele durante um ano e meio - mas não tinha. Talvez essa falsa garantia tenha feito o verde daquela manhã mais verde e mais fresco do que realmente era; os oblíquos raios solares mais virginais, as matas mais mágicas. Mas para que dúvidas não restassem, a EN1 curva metade do perímetro do Grande Monte onde o líder do principal partido da oposição se escondeu e temos muito tempo para reflectir sobre tudo Aquilo. Afinal a camuflagem que ali se oferece não é a do relevo mas a da densidade da clorofila que reflete a Luz do Sol como um clarão do Outro Mundo. 

Na chegada a casa agradeço à Vida, juro que nunca mais volto a fazer uma viagem igual e começo os planos para uma nova. Daqui a menos de 5 anos.














sábado, 8 de novembro de 2014

poeira

Todos os dias vais grosso pela estrada. Todos os dias o mesmo abandono, o mesmo encontro, o mesmo caminho para casa.
Cinco passos, tropeças e um trambulhão. E é onde cais que ficas, de barriga estendida a ver o céu do chão.
Só que hoje não chove há 4 dias e à passagem de cada carro, o céu desaparece e a tua cara enche-se de poeira.
Por isso quando te vi já aproximavas as pernas uma a uma para o peito. E foi com a cabeça entre os joelhos que te vi desaparecer no espelho.

quarta-feira, 22 de outubro de 2014

O Mundo no tempo certo

Nota: Introdução para o JINSP de Odemira





Há uns anos atrás ficámos todos chocados ao descobrir que as nossas crianças estavam a crescer sem saber que as ervilhas e os frangos não nascem nas arcas frigoríficas dos supermercados. A privação mais grave não era sequer a do conhecimento mas a do contacto com o meio natural que esse grande equívoco revelava.

O milagre da vida é um mistério a contemplar de olhos abertos e nunca esse mistério nos tocará de forma tão plena como na infância. Devemos também saber que essa criança não morre para dar lugar ao adolescente, que por sua vez dará lugar ao adulto. Essa criança é a nossa capacidade e anseio de viver a vida num estado puro.

Os alimentos foram a primeira infância do conhecimento do mundo e a fundação da sociedade. Quando conseguimos começar a interpretar os ciclos do ano e os ciclos das plantas pudémos sedentarizar comunidades, alargá-las em número e abrir espaço para os mais fracos e indefesos. O alimento é a manifestação mais concreta da mãe-natureza que sustenta a vida e todos os nossos sentidos guardam registo deste início primordial.

Podemos passar a vida inteira sem ter noção da magnitude desta ligação. Ou podemos ir viver para um hemisfério diferente (o outro, afinal são só dois) e de repente Novembro e ser Primavera. Também se aprende que existe outro borda d’água, no olhar e lentidão dos mais velhos. Mas não é o borda d’água das nossas estações. Vamos sempre andar à procura de referências no calendário e não as vamos encontrar. As conhecidas não estão, as novas enraízam ainda mas as raízes de estaca são sempre mais superficiais. É uma impressão estranha. Talvez tenha sido como a Eva se sentiu depois de morder a maçã.
 
O paraíso é onde a nossa infância está. Um lugar de cheiros, sabores e cadências que para o resto da vida nos dizem o caminho de casa.

sábado, 19 de julho de 2014

Ferry das 22:30







Ferry das 22:30 é o transporte escolar dos alunos dos cursos nocturnos.
Por dentro ajoelho em admiração de como o mundo é acima de tudo um espaço interior. De que outra forma a sala de passageiros do Mpfumu seria convidativa à disciplina dos TPCs ?
Á esquerda a caneta deita fumo de tão rapidamente se resolvem equações de 2º grau; à direita estuda-se a fisiologia dos dentes e da boca; e ainda mais à direita a estrutura da visão noturna é recitada sílaba por sílaba num mergulho tão profundo que só pode vir de dentro da própria retina.
Por um lado tem que ser, faltam poucas horas para o início de um novo dia e ainda é preciso dormir. Mas por outro:  ... caramba !
Se a Educação fosse uma guerra esta seria a sua gloriosa frente de batalha.