quinta-feira, 20 de abril de 2017

O Vazio



Sem sabor, nem cheiro, nem expectativa. O dia perfeito de Primavera no 5º andar de um prédio, sem nada para fazer ou alguém a quem visitar. O telefone quando não toca. Existir, mas fora da rede social.

Trabalhar arduamente sem prazo de entrega. Sentir a fome esganada e começar pela maçã, querer o hambúrguer e comer a sopa. O tanque das sensações antes de encher. O momento antes do escape, antes de ceder ao reflexo da distração.

O fim de tudo e o princípio de tudo, desde que escolha não fazer do tudo, alguma coisa.

domingo, 26 de fevereiro de 2017

Shiva


Nenhuma religião me desafia tanto a imaginação e o sentido que não consigo retirar dela, quanto o Hinduísmo; e de todos os seus deuses, Shiva. Claro, deuses de pele azul ou com cara de elefante ou macaco também são mistérios mas não tão urgentes de esclarecer quanto a santidade da destruição. Um deus que destrói e eu vou acender-lhe uma vela e pedir o quê: que um ciclone atinja a minha loja ? que a crise económica feche o banco onde tenho o meu dinheiro guardado ? O mistério deste culto acompanhou-me desde sempre. O deus que aos meus olhos cristãos tem um aspecto diabólico.

Na minha própria religião também nunca consegui dizer com desprendimento e convicção «seja feita a Tua vontade». Qual vontade ? e se ocorrer uma divergência de interesses ? A minha devoção a deus e à vida sempre teve um limiar que é a eminência da catástrofe. Uma fé sem fé de que outro plano seja mais completo do que aquele que aqui e agora visualizo e entendo. Uma resistência ao movimento.

Mas a vida é infinita apenas na sua repetição, como uma centrifugadora separando o suco do bagaço e pródiga em oportunidades para entendermos a diferença entre um e outro. Pelo menos em oportunidades para mim. «Se estiveres a passar pelo inferno, continua» como dizem que dizia Winston Churchill, o que para mim sempre foi algo a evitar. Só que o bom às vezes é mau e o mau, bom. O que significa querer o bom quando o bom for tentativa de preservação a todo o custo ? Não somos uma pedra imóvel no chão; somos um asteróide que entra na Terra a toda a velocidade e se consome no céu estrelado da noite com um clarão. Não existimos para o bom mas para o extraordinário.

E é quando me vejo no olho do furacão de mais uma mudança de escritório, a terceira em cinco anos, desta vez agravada por uma mudança parcial de residência. Uma mudança de escritório em Moçambique, onde as condições são lentamente angariadas e rapidamente perdidas a cada nova mudança, particularmente agora, mudando de Maputo para o meio rural (Salamanga, a apenas a 60 km de distância da capital do país mas tão profundamente rural como qualquer outro lugar em Moçambique a mais de 5 km da Assembleia da República). E no meio do cansaço, frustração e vontade de que fosse diferente penso em Shiva e na oportunidade de renovação e sinto-me grata por testemunhar no caos um movimento que anima a vida independentemente de mim; grata por sentir que apesar das minhas limitações não há nada que eu possa estragar irremediavelmente; e grata a Shiva por garantir que de uma forma ou outra estarei sempre na rota da renovação e do extraordinário. A isso posso acender-lhe uma vela – no templo de Salamanga.



sexta-feira, 4 de novembro de 2016

Asfalto


Querido Progresso

Chegaste recentemente ao Distrito onde trabalho com a promessa de uma estrada asfaltada e de uma ponte ligando a estrada à capital do País.

Admito que acolhi a notícia da tua chegada com grande apreensão. Trabalhar num lugar esquecido traz muitos desafios ao dia-a-dia mas a alegria da proximidade aos elementos. Comecei a imaginar toda aquela paisagem abatida, queimada e comodamente saindo ensacada nas camionetas dos carvoeiros; e nas camionetas substituídas por camiões, respondendo de forma racional e positiva às novas possibilidades de aumentar o ritmo da extracção.

Os piores receios encontraram confirmação imediata no cenário dantesco de caterpilares e desmatação que marcaram o estágio inicial da construção da estrada. Pensei que depois de ver a destruição nunca mais me iria lembrar de como eram as coisas antes e entristeci-me mais um pouco.

Mas ainda não te tinha dado a oportunidade de te apresentares. Os elefantes metálicos foram descarregando e esticando montanhas de terra e o tapete começou a aparecer com uma lisura comovente, transpirando a beleza da obra pública em preparação. Os buracos que nos seguravam eram substituídos por um piso que agora se oferecia ao nosso avanço: ao transporte de bens e mercadorias, ao conforto dos doentes transportados da Bela-Vista para a Catembe deitados atrás na caixa das carrinhas.

Assim que pudémos experimentar circular pelas primeiras terraplanagens comecei a torcer por ti. E a cada novo avanço uma alegria irracional, inexprimível, preencheu o habitáculo do carro - com gritos e pancadas no volante. O primeiro troço asfaltado ! mais 12 km na semana a seguir ! as primeiras marcações ! e desde ontem: os 30 km do Elisa à Bela-Vista asfaltados...
 
Fazer em 15 min o mesmo trajecto que antes raramente se fazia em menos de 1 hora não se explica em palavras, sente-se no corpo. Tendo vivido sempre a normalidade do asfalto (até vir para aqui) nunca pensei que iria ter a oportunidade de testemunhar 50 anos de tempo histórico colapsados nos 2 de uma estrada em construção.

As perdas virão mas neste novo começo celebramos inevitavelmente uma nova vida e a renovação da esperança num futuro melhor.

domingo, 25 de setembro de 2016

Matta Iluminada


Leitor, meu leitor amigo!
É noite e noite fechada!
Queres viajar? Vem commigo!
Não é grande a caminhada!
Apenas uma jornada.
 
Iremos ao desabrigo,
mas a floresta orvalhada
está toda embalsamada
de agrestias e perfumes
 
As luzes que aqui scintilam
não são como as da cidade,
fócos de electricidade,
como tu, leitor, presumes.
 
Os luzeiros que fuzilam,
como estrelas em cardumes,
pela escuridão cerrada,
são os próprios vagalumes
desta matta illuminada.
 
Catullo da Paixão Cearense

segunda-feira, 12 de setembro de 2016

Frágil


Entre as muitas fantasias geográficas que cultivei nunca esteve África. E mesmo quando no curso me aproximei do destino futuro tropical ou sub-tropical, África sempre foi, de certa forma (indefinida mas constante), o cálice a evitar.

Foi então, sem nunca ter sido desejada, que África se materializou no convite da Marina para a acompanhar a São Tomé e Princípe.

Um pouco perdida na tarefa que tinha a desempenhar e sem dever nada a alguma antecipação que tivésse alimentado à partida, percorri pela primeira vez as ruas de São Tomé com olhar aleatório e um pouco entediado. Até que entrei no mercado e vi a primeira vendedeira a dormir sobre os produtos.

Depois vi que não era só a primeira, eram mais. E não eram só as vendedeiras, um pouco por todo o lado onde existissem tarefas a cumprir, o aborrecimento da desocupação ou o cansaço uma vez presentes eram expressos a todo o comprimento da coluna deitada sobre o trabalho.

A etimologia da palavra trabalho onde estava ? Longe o suficiente para me fazer duvidar do pecado da preguiça e pensar no pecado maior que seria negar a natureza humana na sua base que é imperfeita, frágil e tão devidamente vergonhosa quanto mais a quisermos ver assim.

Anotei Fernando Pessoa no caderno como recordatória de que se ser perfeito é ser completo e se ser completo é ser imperfeito então ser perfeito é ser imperfeito.











terça-feira, 2 de junho de 2015

Sofrer Formação



- Mas quando é que isto acaba ?

O saber não ocupa lugar mas ocupa tempo e há actividades mais urgentes como as que se ligam directamente às necessidades domésticas correntes assim como as que as provêm no médio prazo.

Mas de manhã o milagre volta a acontecer e uma por uma as minibus previstas vão-se enchendo. Não pagamos perdiem, não somos OMM, não somos Governo e sei bem o que estas presenças significam. Significam que sobre a pergunta da impaciência prevalece outra:

- E se não for, será que vou perder a oportunidade de ver a minha vida melhorar ?

O benefício da dúvida, esse benefício tão subvalorizado, revelou-me nesse momento o seu lado providencial.

E como um peregrino de longa viagem, senti-me a descobrir no meio das ervas o marco que indica os kilómetros; mas que acima de tudo indica que estou na estrada.

Como dizia o Mestre «não faças muitos planos para a vida não vás estragar os que ela tem para ti».

O bem que tudo permeia e que apenas precisa do espaço da respiração para se manifestar.

segunda-feira, 27 de abril de 2015

O Espírito do Ubuntu

«Sou o que sou por sermos todos o que somos» em dois reversos da medalha, episódios ou pessoas conhecidas:


Parte I - Tomás Novela

Toda a gente devia conhecer o Tomás. Pelo menos toda a gente que acredita no valor transformador dos movimentos sociais de base; e os que acreditam que a Ajuda ao Desenvolvimento é um mito urbano. O Tomás é a resposta local ao Desafio Global e nos caminhos que ele aponta penso na sorte dos caminhos que o trouxeram até aqui.

A sala incendeia-se mas ninguém promete dinheiro. A sala incendeia-se porque se apresentam ligações com sentido, porque chega informação.

Estamos juntos no melhor sentido do Ubuntu, que é o consenso baseado na evidência partilhada da verdade.


Parte II - Paula Venene


Ser Agente Comunitário de Saúde em Moçambique (Agente Polivalente Elementar APE) é uma profissão paga pelo estado. Mas o pagamento trimestral com muitos trimestres de atraso convertem o salário em activismo funcional - e involuntário. O Agente fica efectivamente entregue a si próprio e à sua comunidade extremamente isolada, que apenas recebe atendimento médico através de si.

A 60 km de distância do Centro de Saúde de Bela-Vista a comunidade de Mussongue sabe disto muito bem. Por isso quando a sua APE teve que buscar refúgio para si e os seus 3 filhos na comunidade vizinha de Huco - onde não tem nada além dos 10 km de distância tamponizadora das fúrias intensas mas voláteis do marido -, Mussongue não aceitou.

A Paula pode continuar a viver em Huco mas terá que se deslocar duas vezes por semana à Escola Primária de Mussongue para atender a população. A comunidade fará a devida escolta de protecção mas quanto ao transporte nada poderá fazer. Será a pé, claro.