Ensinam-nos que
as sombras anunciam as sombras, como se a vida e a morte não se pudéssem misturar
no mesmo dia. Como se a vida não contivésse a morte e a morte a vida. Quod vos estis, nos fuimos: quod nos sumus,
vos eritis. Esta foi uma lição que o dia 19 de Outubro de 1988 me ensinou, que entre a vida e a morte não existe nada que separe.
Até às 20 foi um
dia como as outras segundas, quartas e sextas, jantar primeiro e aula de música
depois. A terminar o jantar o ritual de descascar a fruta em quartos
(maçã ou pêra), para a dar a caçar em dribles no ar, espetada no talher que estivésse à mão. Quarto por quarto, todos os dias, o
jogo da sobremesa era o mesmo e o efeito também, que era fazer-nos rir e
lembrar-nos que éramos felizes. Disso
aliás também me andavam a fazer recordar nas fichas de início do ano
lectivo que nunca tinha preenchido, porque para mim era também o início da
Escola Preparatória. Nas fichas, além do nome e idade, morada etc devíamos preencher também
a composição do agregado familiar e ao fim de algumas preenchidas (preenchíamos uma por
disciplina), não conseguia evitar sentir-me sortuda. «Tenho pai,
tenho mãe, tenho irmã, tenho tudo».
Depois das 20
o plano começou a inclinar. A aula de música era na Liga dos Amigos de Queluz,
que ocupava um chalet periclitante de 1919 (estava escrito sobre a porta). Sabíamos todos da sua frágil
condição e instintivamente moderávamos a explosividade própria da idade ao subir
ao 1º piso, não fôssemos desabar com as tábuas do chão e o piano em cima da cabeça da D.
Amélia - que na secretaria da entrada se entregava santamente ao processamento
das mensalidades e outras tarefas de repetição. Nessa noite, a novidade que a
decrepitude do chalet trazia, era a falta de luz na casa-de-banho, da
qual pretendia fazer uso. Entrei tentando ajustar os olhos à penumbra e pensei
que com uma fresta da porta aberta para a luz do corredor, conseguiria ao mesmo tempo a privacidade e luz suficiente para fazer
tudo o que tinha para fazer. Foi nessa situação de tensão entre a luz e as
trevas e o zénite da sanita (na qual não pretendia tocar de forma nenhuma) que
entrevi ali mesmo no chão, no ponto médio triangulado a partir da posição dos
meus pés, posicionado com rigor maçónico, um pequeno cócó da escala dos meus
que terminava com uma pinta. Tenho a imagem dessa natureza morta tão clara que a poderia desenhar. Alguém como eu, calculando aflitivamente a posição
da sanita para não ter que se sentar, tinha falhado; e no que para mim foi uma
certeza, saiu da casa-de-banho acreditando ter acertado. Reentrei na aula a tentar conter as gargalhadas mas sem conseguir, contangiando por perímetro de influência a
minha amiga Rita, os colegas e a própria professora; que se viu forçada a interromper
a aula para resolver a situação, permitindo à turma testemunhar de uma vez por todas a involuntária e cómica instalação.
Dali até a casa
contagiei também o meu pai, que nunca mais se esqueceu porque passado pouco tempo de termos chegado a minha mãe teve um derrame cerebral massivo ao qual não veio a sobreviver.
A justaposição destes dois eventos extremos e extraordinários deixou-nos o problema de os reconciliarmos com o acaso. Houve um momento que mudou tudo para sempre mas da forma que o vivemos, o resto das nossas vidas não começou em 0, começou em t-0. Uma contagem regressiva hilariante, surreal, sinistra. Não falámos muito mais sobre isto mas o suficiente para saber que a vida se explicou da mesma forma para nós os dois.