Querido Progresso
Chegaste recentemente ao Distrito onde trabalho com a
promessa de uma estrada asfaltada e de uma ponte ligando a estrada à capital do
País.
Admito que acolhi a notícia da tua chegada com grande
apreensão. Trabalhar num lugar esquecido traz muitos desafios ao dia-a-dia mas
a alegria da proximidade aos elementos. Comecei a imaginar toda aquela paisagem
abatida, queimada e comodamente saindo ensacada nas camionetas dos carvoeiros;
e nas camionetas substituídas por camiões, respondendo de forma racional e positiva às novas
possibilidades de aumentar o ritmo da extracção.
Os piores receios encontraram confirmação imediata no
cenário dantesco de caterpilares e desmatação que marcaram o estágio inicial da
construção da estrada. Pensei que depois de ver a destruição nunca mais me iria
lembrar de como eram as coisas antes e entristeci-me mais um pouco.
Mas ainda não te tinha dado a oportunidade de te apresentares. Os elefantes metálicos foram descarregando e esticando montanhas
de terra e o tapete começou a aparecer com uma lisura comovente, transpirando a
beleza da obra pública em preparação. Os buracos que nos seguravam eram substituídos
por um piso que agora se oferecia ao nosso avanço: ao transporte de bens e
mercadorias, ao conforto dos doentes transportados da Bela-Vista para a Catembe
deitados atrás na caixa das carrinhas.
Assim que pudémos experimentar circular pelas primeiras
terraplanagens comecei a torcer por ti. E a cada novo avanço uma alegria irracional, inexprimível, preencheu o habitáculo do carro - com gritos e pancadas no volante. O primeiro
troço asfaltado ! mais 12 km na semana a seguir ! as primeiras marcações ! e
desde ontem: os 30 km do Elisa à Bela-Vista asfaltados...
Fazer em 15 min o
mesmo trajecto que antes raramente se fazia em menos de 1 hora não se explica em palavras, sente-se no corpo. Tendo vivido sempre a normalidade
do asfalto (até vir para aqui) nunca pensei que iria ter a oportunidade de testemunhar 50 anos de tempo histórico colapsados nos 2 de uma estrada em construção.
As perdas virão mas neste novo começo celebramos inevitavelmente
uma nova vida e a renovação da esperança num futuro melhor.