sexta-feira, 4 de novembro de 2016

Asfalto


Querido Progresso

Chegaste recentemente ao Distrito onde trabalho com a promessa de uma estrada asfaltada e de uma ponte ligando a estrada à capital do País.

Admito que acolhi a notícia da tua chegada com grande apreensão. Trabalhar num lugar esquecido traz muitos desafios ao dia-a-dia mas a alegria da proximidade aos elementos. Comecei a imaginar toda aquela paisagem abatida, queimada e comodamente saindo ensacada nas camionetas dos carvoeiros; e nas camionetas substituídas por camiões, respondendo de forma racional e positiva às novas possibilidades de aumentar o ritmo da extracção.

Os piores receios encontraram confirmação imediata no cenário dantesco de caterpilares e desmatação que marcaram o estágio inicial da construção da estrada. Pensei que depois de ver a destruição nunca mais me iria lembrar de como eram as coisas antes e entristeci-me mais um pouco.

Mas ainda não te tinha dado a oportunidade de te apresentares. Os elefantes metálicos foram descarregando e esticando montanhas de terra e o tapete começou a aparecer com uma lisura comovente, transpirando a beleza da obra pública em preparação. Os buracos que nos seguravam eram substituídos por um piso que agora se oferecia ao nosso avanço: ao transporte de bens e mercadorias, ao conforto dos doentes transportados da Bela-Vista para a Catembe deitados atrás na caixa das carrinhas.

Assim que pudémos experimentar circular pelas primeiras terraplanagens comecei a torcer por ti. E a cada novo avanço uma alegria irracional, inexprimível, preencheu o habitáculo do carro - com gritos e pancadas no volante. O primeiro troço asfaltado ! mais 12 km na semana a seguir ! as primeiras marcações ! e desde ontem: os 30 km do Elisa à Bela-Vista asfaltados...
 
Fazer em 15 min o mesmo trajecto que antes raramente se fazia em menos de 1 hora não se explica em palavras, sente-se no corpo. Tendo vivido sempre a normalidade do asfalto (até vir para aqui) nunca pensei que iria ter a oportunidade de testemunhar 50 anos de tempo histórico colapsados nos 2 de uma estrada em construção.

As perdas virão mas neste novo começo celebramos inevitavelmente uma nova vida e a renovação da esperança num futuro melhor.