Há uns anos atrás ficámos todos chocados ao descobrir que as
nossas crianças estavam a crescer sem saber que as ervilhas e os frangos não
nascem nas arcas frigoríficas dos supermercados. A privação mais grave não era
sequer a do conhecimento mas a do contacto com o meio natural que esse grande
equívoco revelava.
O milagre da vida é um mistério a contemplar de olhos
abertos e nunca esse mistério nos tocará de forma tão plena como na infância. Devemos
também saber que essa criança não morre para dar lugar ao adolescente, que por
sua vez dará lugar ao adulto. Essa criança é a nossa capacidade e anseio de viver
a vida num estado puro.
Os alimentos foram a primeira infância do conhecimento do
mundo e a fundação da sociedade. Quando conseguimos começar a interpretar os
ciclos do ano e os ciclos das plantas pudémos sedentarizar comunidades,
alargá-las em número e abrir espaço para os mais fracos e indefesos. O alimento
é a manifestação mais concreta da mãe-natureza que sustenta a vida e todos os nossos sentidos guardam registo deste início primordial.
Podemos passar a vida inteira sem ter noção da magnitude
desta ligação. Ou podemos ir viver para um hemisfério diferente (o outro,
afinal são só dois) e de repente Novembro e ser Primavera. Também se aprende
que existe outro borda d’água, no olhar e lentidão dos mais velhos.
Mas não é o borda d’água das nossas estações. Vamos sempre andar à procura de
referências no calendário e não as vamos encontrar. As conhecidas não estão, as
novas enraízam ainda mas as raízes de estaca são sempre mais superficiais. É
uma impressão estranha. Talvez tenha sido como a Eva se sentiu depois de morder
a maçã.
O paraíso é onde a nossa infância está. Um lugar de cheiros, sabores e cadências que para o resto da vida nos dizem o caminho de casa.