quinta-feira, 3 de outubro de 2013

O Colosso



A negra gigante estava descalça no meio da noite e eu comecei a vê-la pelos pés. Vi-a com clareza cinematográfica.

Vi o pó do chão que passava para pó nos pés gradualmente. Vi a pele clara que sobressaía dos lados dos pés, que subia e desaparecia na pele escura da parte de cima. Vi as rugas da pele e vi a pele engrossar nos cantos que sobram onde as unhas se acomodam nos dedos.

Como se estivésse caída no chão comecei a levantar a cabeça e com a cabeça levantei o olhar. Vi a saia de capulana branca e vi que a camisa era branca também. A imobilidade do corpo poder-se-ia ter confundido com uma estátua mas não era. Era o tempo que estava parado.

Na sua proximidade podia sentir o volume da sua respiração e as gotas de vapor que dela emanavam adensadas pelo pó. Este corpo imenso na minha frente era mais pesado, mais vivo, mais presente do que ali era para mim própria. Mas só percebi quando lhe vi a cara.

- A velha negra colossal era eu.