A negra gigante estava descalça no meio da
noite e eu comecei a vê-la pelos pés. Vi-a com clareza cinematográfica.
Vi o pó do chão que passava para pó nos pés
gradualmente. Vi a pele clara que sobressaía dos lados dos pés, que subia e desaparecia
na pele escura da parte de cima. Vi as rugas da pele e vi a pele engrossar nos cantos que sobram onde
as unhas se acomodam nos dedos.
Como se estivésse caída no chão comecei a
levantar a cabeça e com a cabeça levantei o olhar. Vi a saia de capulana
branca e vi que a camisa era branca também. A imobilidade do corpo poder-se-ia ter confundido
com uma estátua mas não era. Era o tempo que estava parado.
Na sua proximidade podia sentir o volume da
sua respiração e as gotas de vapor que dela emanavam adensadas pelo pó. Este
corpo imenso na minha frente era mais pesado, mais vivo, mais presente do que ali
era para mim própria. Mas só percebi quando lhe vi a cara.
- A velha negra colossal era eu.
- A velha negra colossal era eu.