quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Trabalha Moçambique


Nunca fui rica nem pobre mas lembro-me de olhar à volta, sentir que tinha menos e de me envergonhar de ter menos.

A única forma de não me render à inveja e à auto-comiseração foi racionalizar. Identificar equivalentes em termos de estima pessoal e transferindo os menos em mais:

«Não tenho isso mas tenho isto.» 

E se alguém me visse como pobre, que fizesse a gentileza de não me dizer.

Ninguém capitaliza sobre défices e nessa base fui-me definindo e “enriquecendo”. A miséria é impotência, o contrário é a “acção”.

É então com algum incómodo que vivo hoje num mundo que se refere a uma parte da sua população como 'pobre'; ou em superlativo: 'absolutamente pobre'. Um mundo solidário mas que se esqueceu de ser gentil.

A cadeia do discurso ganha vida própria e para quem a percorre até ao fim, espera-o a armadilha da indiscrição: um dia olhar alguém com quem irá falar e antes de tudo ver um pobre. A simplificação do conceito que seca o olhar e ofende o próximo na sua dignidade. Um próximo fundamentalmente idêntico nascido num contexto radicalmente diferente; na mesma grande e universal aventura do que é ser humano.

No país em que vivo são ricos os que dizem que são pobres. Os pobres estão na luta. A luta desenrascada, «assim mesmo», do seja como for. Dos dias sempre iguais, no esforço mais caro do mundo.

Venho aqui por isso para louvar o Moçambique que tenho aprendido a descobrir. O Moçambique que se espreme no chapa e estuda no ferry-bót. Que começa a circular com o nascer do sol para levar os filhos à escola, ir buscar água, lavar a roupa ou esperar só para no outro dia voltar a tentar. O Moçambique que aguenta, espera e desespera mas insiste.

A graça da peso que carregam como se fosse nada é a vitória. Suspensão da gravidade que outros pensam que a todos afecta por igual: cobrando a dignidade.

Força Moçambique. O futuro melhor é de quem o vê.