segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Enterra a Minha Perna

"Carregai os fardos uns dos outros e assim cumprireis a lei de Cristo."

(Gálatas, 6:2)

«Enterra a minha perna porque são duas pessoas que pertencem ao meu desmembramento e tu és a outra. Cortaram-me a perna e eu quero-te no meu luto. A minha perna jaz ali no alguidar desde ontem, embrulhada no pano verde da sala de operações, ensopado no meu sangue. A servente do hospital não pode fazer mais nada e por isso tens que ser tu. O meu filho já tem a capulana preta. Enrola a perna na mortalha e vai enterrá-la. Não me faças esperar mais do que o ter ficado sem perna me vai adiar para sempre.»

E como se eu pudésse ter dúvidas resumiu:

«Aceita a culpa que nos ligou. Tu seguias livre do teu lado mas para me encontrar e agora o luto da minha perna é irreversível também na tua vida. Estamos juntos.»

Fui para o corredor do hospital e pedi ajuda por 100 meticais. «Alguém me ajude» e ajudaram-me, pedindo apenas as mínimas indicações. Com luvas e máscara, o Sr. Anónimo era o primeiro do nosso cortejo fúnebre até às fossas do Hospital. A primeira fossa estava cheia até acima e a segunda também, de modo que teve que ser assim mesmo, desenrascando ‘à maneira’, que foi colocar a perna no topo da pilha, a tampa da fossa por cima da perna e saltar até a tampa encaixar e fechar.

Pude então voltar à enfermaria de cirurgia:

«Já enterrei a tua perna e a tua lembrança vai ficar sempre comigo. De tão longe viémos para nos encontrarmos num segundo trágico. Não posso reparar mais nada mas posso ser testemunha e contar sempre tudo como foi.»