Prefácio de Paul Auster à 'Fome' de Knut Hamsun
Aquilo que é importante, parece-me, não é tanto o defender a cultura, cuja existência nunca impediu um homem de passar fome, mas sim o extrair daquilo que se chama cultura, ideias cuja força motivadora seja idêntica à da fome.
Antonin Artaud
Um homem jovem chega a uma cidade. Não tem nome, casa ou trabalho; ele veio para a cidade para escrever. Ele escreve. Ou, mais precisamente, ele não escreve. Ele passa fome até estar quase morto.
A cidade é Kristiania (hoje Oslo); o ano é o de 1890. O jovem vagueia pelas ruas: a cidade é um labirinto de fome, e todos os seus dias são iguais. Escreve artigos não solicitados para um jornal local. Preocupa-se com a renda, as roupas cada dia mais degradadas, a dificuldade de conseguir a refeição seguinte. Sofre. Chega quase a enlouquecer. Nunca está a menos de um passo do colapso.
Ainda assim, escreve. De vez em quando consegue vender um artigo que lhe permite uma trégua temporária na sua miséria. Mas está demasiado fraco para conseguir escrever regularmente e raramente consegue terminar as peças que começou. Entre os seus trabalhos abortados encontram-se um ensaio intitulado «Crimes do futuro», um tratado filosófico sobre a liberdade da vontade, uma alegoria sobre um incêndio numa livraria (os livros são cérebros), e uma peça passada na Idade Média, O sinal da cruz. O processo é inevitável: ele tem de comer de modo a escrever. Mas se não escrever, não conseguirá comer. E se não pode comer, não pode escrever. Ele não pode escrever.
Ele escreve. Ele não escreve. Ele vagueia pelas ruas da cidade. Fala em voz alta para si mesmo em público. Assusta as pessoas, que se afastam dele. Quando, por acaso, consegue algum dinheiro, oferece-o. É posto fora do quarto que arrendara. Come e depois vomita tudo. A certa altura namorisca com uma rapariga, mas nada daí resulta a não ser humilhação. Passa fome. Amaldiçoa o seu mundo. Ele não morre. No fim sem razão aparente, oferece-se para fazer parte da tripulação de um barco e parte da cidade.
Este é o esqueleto do primeiro romance de Knut Hamsun, Fome. (...) Fome ou um retrato do artista enquanto jovem. Mas é uma aprendizagem que pouco tem que ver com as lutas precoces de outros escritores. O herói de Hamsun não é nenhum Stephen Dedalus e praticamente não há uma palavra em Fome sobre teoria estética. O mundo da arte foi traduzido enquanto mundo do corpo - e o texto original foi abandonado. A fome não é uma metáfora, é o verdadeiro fulcro do problema. Se outros como Rimbaud, com o seu programa para a confusão voluntária dos sentidos, tornaram o corpo um princípio estético de direito próprio, o herói de Hamsun rejeita abertamente a oportunidade de usar as suas deficiências a seu favor. Está debilitado, perdeu controlo sobre os seus próprios pensamentos e ainda assim continua a lutar por manter a lucidez na sua escrita. (...) Não se pode escrever de estômago vazio por mais que se tente. Mas seria errado considerar-se o herói de Fome como um lunático ou um idiota. Para lá da evidência, ele sabe o que está a fazer. Ele não pretende ser bem sucedido. Ele quer falhar.
(...) No final de tudo, a arte da fome pode ser descrita como arte existencial. É uma forma de olhar a morte nos olhos e por morte quero dizer a morte como a vivemos hoje: sem Deus, sem esperança de salvação. Morte como o fim abrupto e absurdo da vida.
Acho que não chegámos mais longe do que isto. É mesmo possível que tenhamos chegado a este ponto há mais tempo do que estejamos prontos a admitir. Durante todo este tempo, contudo, apenas alguns artistas foram capazes de o reconhecer. Requer coragem e não muitos de nós estariam dispostos a arriscar tudo por nada. Mas isso é o que acontece em Fome, um romance escrito em 1890. A personagem de Hamsun alivia-se sistematicamente de qualquer crença em qualquer sistema, e no final, por meio da fome que se inflingiu, alcança nada. Não há nada para o manter em movimento - e ainda assim continua. Caminha bem para dentro do século XX.