terça-feira, 31 de março de 2009

A Arte da Fome

Prefácio de Paul Auster à 'Fome' de Knut Hamsun

 

Aquilo que é importante, parece-me, não é tanto o defender a cultura, cuja existência nunca impediu um homem de passar fome, mas sim o extrair daquilo que se chama cultura, ideias cuja força motivadora seja idêntica à da fome.
Antonin Artaud
 
Um homem jovem chega a uma cidade. Não tem nome, casa ou trabalho; ele veio para a cidade para escrever. Ele escreve. Ou, mais precisamente, ele não escreve. Ele passa fome até estar quase morto.
A cidade é Kristiania (hoje Oslo); o ano é o de 1890. O jovem vagueia pelas ruas: a cidade é um labirinto de fome, e todos os seus dias são iguais. Escreve artigos não solicitados para um jornal local. Preocupa-se com a renda, as roupas cada dia mais degradadas, a dificuldade de conseguir a refeição seguinte. Sofre. Chega quase a enlouquecer. Nunca está a menos de um passo do colapso.
Ainda assim, escreve. De vez em quando consegue vender um artigo que lhe permite uma trégua temporária na sua miséria. Mas está demasiado fraco para conseguir escrever regularmente e raramente consegue terminar as peças que começou. Entre os seus trabalhos abortados encontram-se um ensaio intitulado «Crimes do futuro», um tratado filosófico sobre a liberdade da vontade, uma alegoria sobre um incêndio numa livraria (os livros são cérebros), e uma peça passada na Idade Média, O sinal da cruz. O processo é inevitável: ele tem de comer de modo a escrever. Mas se não escrever, não conseguirá comer. E se não pode comer, não pode escrever. Ele não pode escrever.
Ele escreve. Ele não escreve. Ele vagueia pelas ruas da cidade. Fala em voz alta para si mesmo em público. Assusta as pessoas, que se afastam dele. Quando, por acaso, consegue algum dinheiro, oferece-o. É posto fora do quarto que arrendara. Come e depois vomita tudo. A certa altura namorisca com uma rapariga, mas nada daí resulta a não ser humilhação. Passa fome. Amaldiçoa o seu mundo. Ele não morre. No fim sem razão aparente, oferece-se para fazer parte da tripulação de um barco e parte da cidade.
Este é o esqueleto do primeiro romance de Knut Hamsun, Fome. (...) Fome ou um retrato do artista enquanto jovem. Mas é uma aprendizagem que pouco tem que ver com as lutas precoces de outros escritores. O herói de Hamsun não é nenhum Stephen Dedalus e praticamente não há uma palavra em Fome sobre teoria estética. O mundo da arte foi traduzido enquanto mundo do corpo - e o texto original foi abandonado. A fome não é uma metáfora, é o verdadeiro fulcro do problema. Se outros como Rimbaud, com o seu programa para a confusão voluntária dos sentidos, tornaram o corpo um princípio estético de direito próprio, o herói de Hamsun rejeita abertamente a oportunidade de usar as suas deficiências a seu favor. Está debilitado, perdeu controlo sobre os seus próprios pensamentos e ainda assim continua a lutar por manter a lucidez na sua escrita. (...) Não se pode escrever de estômago vazio por mais que se tente. Mas seria errado considerar-se o herói de Fome como um lunático ou um idiota. Para lá da evidência, ele sabe o que está a fazer. Ele não pretende ser bem sucedido. Ele quer falhar.
(...) No final de tudo, a arte da fome pode ser descrita como arte existencial. É uma forma de olhar a morte nos olhos e por morte quero dizer a morte como a vivemos hoje: sem Deus, sem esperança de salvação. Morte como o fim abrupto e absurdo da vida.
Acho que não chegámos mais longe do que isto. É mesmo possível que tenhamos chegado a este ponto há mais tempo do que estejamos prontos a admitir. Durante todo este tempo, contudo, apenas alguns artistas foram capazes de o reconhecer. Requer coragem e não muitos de nós estariam dispostos a arriscar tudo por nada. Mas isso é o que acontece em Fome, um romance escrito em 1890. A personagem de Hamsun alivia-se sistematicamente de qualquer crença em qualquer sistema, e no final, por meio da fome que se inflingiu, alcança nada. Não há nada para o manter em movimento - e ainda assim continua. Caminha bem para dentro do século XX.

quarta-feira, 25 de março de 2009

Lucky Dube

A primeira vez que ouvi Lucky Dube foi em Cuamba. Lá ía eu por meio de uma das suas 3 grandes alamedas empoeiradas tentar desenrascar uma papaia que não estivésse podre ou verde contra todas as probabilidades uma vez que já estávamos no entardecer. Esse era o cenário: Cuamba ao final do dia, a magnífica luz dourada do pôr-do-sol na estação seca a menos de 15º de latitude - adensada pelo pó - e uma tarefa de moderada responsabilidade que me dava um destino sem me absorver. A cada 20 metros o som que saturava o ar renovava-se, à medida do despique impossível entre negócios praticamente iguais. Mas houve 20 metros em que as colunas debitavam alguma coisa um pouco diferente e os meus passos desacelararam. Eu estava muito curiosa mas eu fiquei também embalada. Naquele crivo não consegui passar e lá fui espreitar o que a loja vendia. O dono da loja não demonstrou grande simpatia na minha entrada o que achei natural, afinal o meu interesse naquela tarde eram as papaias e deve ter sido óbvio que não tinha entrado ali para as comprar. Entrei com ar de branca em áfrica pronto ("que som é este que me chama ao entardecer...?"), mas não me acanhei. Perguntei mesmo "olá, o senhor não é moçambicano pois não?". A cara de parva deve ter ajudado porque ele respondeu; era nigeriano. Tentei conter o fascínio simulando completo desinteresse pela novidade "ah, é nigeriano". Mas fiquei realmente tentada a dar voz à surpresa que me assaltou naquele momento: "nigeriano?! e isso é normal?! um nigeriano aqui? há mais amigos seus da áfrica ocidental por cá ou o seu é um caso isolado?... sempre pensei que a selva do congo constituísse uma fronteira natural para vocês...", afinal o que poderia haver de apelo ali no Niassa que o tenha feito vir de tão longe? Tudo perguntas que lá resisti a que ficassem sem resposta mas os óculos de plástico também já estavam todos vistos e o momento podia começar a ficar tenso. Tive que abrir mão. - E a música que está a dar o que é? - Lucky Dube. Agradeci, desejei boa tarde e tentei não voltar a passar lá perto não fosse ele achar que eu era esquisita.