Um dia com fome custa a passar. É acordar e encostar só e esperar.
(Filomena)
sexta-feira, 26 de setembro de 2008
terça-feira, 23 de setembro de 2008
Camponeses Preguiçosos

SAVANA - 27.04.2007
http://macua.blogs.com/
Não há muitos anos, hora de trabalho nos bairros periféricos era sinónimo de ruas desertas. Mas tudo mudou. Ociosidade e desemprego não diferenciam o movimento a qualquer hora do dia nas vielas poeirentas do subúrbio, espaço partilhado por montanhas de lixo e barracas coloridas com a música aos berros. Era aqui que o presidente deveria ter feito o discurso dos preguiçosos, dos que levantam de manhã e já estão cansados, os que encostam debaixo da árvore ou na sombra da barraca. Mas não foi. Foi na Zambézia, a província que já foi a mais rica do país. Pelas culturas de rendimento, pela agro-indústria, pela riqueza criada pelo trabalho assalariado. Pelo consumo de “whiskie” que era o mais elevado na província ultramarina. Pelo meio veio o dilúvio da guerra e os assalariados de outrora são os desempregados de hoje. Os filhos deles, que até foram à escola, gostariam de ter trabalho, mas nunca tiveram emprego. Isso não é sinónimo de preguiça. O sector familiar, o que o Estado assobia para o ar e faz que não vê, debitou colheitas recorde nos últimos dois anos. Num qualquer boteco mexicano as “quezadillas” são agora preparadas com milho “made in Mozambique” dos zambezianos, mas também dos camponses de Nampula e do Niassa. Os tais preguiçosos mandam o seu milho – sem ficha de exportação registada pelos burocratas das estatísticas – para o Malawi. Umas vezes para matar a fome, outras vezes para alimentar as agro-indústrias rudimentares que os malawianos desenvolveram junto à longa fronteira que separa os dois países. Outras vezes ainda para fazer subir e baixar preços, especulação. Mesmo assim, é melhor exportar que ler notícias de cereais apodrecidos patrioticamente nos armazéns de Tete. Os tais preguiçosos vendem o milho que as Nações Unidas utilizam para matar a fome aos súbditos do sr. Robert Mugabe, o regime que hipocritamente continua a ser apoiado pelos regimes da região. Os preguiçosos da Zambézia poderiam matar a fome aos seus conterrâneos de Inhambane, de Gaza e Maputo, onde há bolsas de fome cíclicas. Só que os camponeses não podem substituir-se à rede de segurança alimentar, do mesmo modo que camionistas e comerciantes não se substituem ao instituto das calamidades, subsidiando o preço dos combustíveis e meios de transporte entre o Norte e o Sul. Os preguiçosos da Zambézia têm um exército de bicicletas que compraram com o seu suor, que trocaram por milho, gergelim, feijão bóer. A bicicleta na Zambézia não é bicicleta, é camião. Podem baixar os vidros fumados dos 4x4 e ver os volumes incríveis que são empoleirados no veículo de duas rodas. Porque quase não há “chapa” entre Mocuba e Mugeba, entre Megaza e a Murrumbala, entre Chimuara e Mopeia, entre Mocubela e Pebane. São os zambezianos que são força de trabalho em Marromeu e nas “farmas” dos zimbabweanos em Manica. Pelos melhores e piores motivos são os condutores e cobradores de “chapa” em Maputo, são vendedores ambulantes e empreendedores de “dumba-nengue”. O problema não é a preguiça senão teremos que recuperar os velhos manuais sobre as técnicas do chibalo e o “imposto de palhota”, a porta de entrada para a salarização ou monetarização dos que teimavam em manter-se à margem da economia da modernidade trazida pelo colono. O pessoal do campo precisa de estrutura e rede para produzir. Precisa de saber que o que produz é comprado, que pode produzir para comer em primeiro lugar e que pode cultivar também para o rendimento: gergelim, algodão, tabaco. O camponês precisa de ser sustentado pelo mercado e não pela subsistência que o transforma no elo mais fraco do ciclo de produção. Que lhe dá o ferrete de preguiçoso.
sábado, 13 de setembro de 2008
Filomena
O prato de ‘chima’ atribuído a cada refeição era doseado para um colectivo de três adultos e uma criança. Tendo eu percebido que este colectivo era alargado a mais uma criança nos dias em que o apetite me permitia terminar mais cedo, passei a terminar mais cedo com mais frequência. A Filomena, que vigiava o menor dos meus gestos a todos os momentos do dia, inclusivamente estando de costas, suspeitou da minha crescente frugalidade e interpretou-a no pior sentido, como desprezo declarado à sua comida. Percebi o mal entendido que se gerava mas não podia evitar sentir-me gulosa quando comia a partir de um certo ponto. Eram simplesmente demasiadas intenções sobrepostas à minha para que me pudesse abstrair. A minha expressão amiga passou a ser o “saciei” dito o mais displicentemente que os meus nervos permitiam negociar. Houve um dia que deve ter sido demais para ela e reparando que eu me preparava para afastar do prato, com a boca carregada de comida e ironia, fulminou-me com escatologia irrepreensível:
- Terminou?
- Sim.
- Porquê?
- Saciei.
- Saciou? Eu não. Eu hoje vou comer até sair cócó.
- Terminou?
- Sim.
- Porquê?
- Saciei.
- Saciou? Eu não. Eu hoje vou comer até sair cócó.
A todas as refeições a Filomena cultivava o empanturramento. Era uma alarvidade que a princípio encarava com humor mas que sempre me intrigou. Afinal era dela que ouvia os relatos mais vívidos da última fome passada na aldeia em 2004 e não podia deixar de entrever nos excessos de hoje a falta de outros tempos; a reedição de horas de grande angústia numa exuberante toma de alimentos. Se a visita tivesse sido mais curta teria eu visto a escassez num corpo com excesso de peso?
sexta-feira, 12 de setembro de 2008
Toqueleque Maulana
O senso comum que me formou na consciência do bem fundamental que é a solidariedade, as leituras e exames em Lisboa, os filmes, as histórias que a minha avó contava do tempo em que na faixa pirítica os homens saiam para trabalhar nas minas com as lancheiras vazias, 1 mês de trabalho em São Tomé e Príncipe: nada me preparou para o que vim a encontrar. Surpresa após surpresa estou no Niassa, tenho que prestar sempre muita atenção e registar tudo no caderno de campo. Eu sou a branca, com ethoco (casa) que sai da mala (tenda), tem sapatilha boa e ninguém quer saber o que é que me traz ali. O 'Desenvolvimento' da minha fantasia não existe e na aldeia desperto na aferição do seu grau de pureza.
Questionário nº24, 9-7-2007, Namanha
Toqueleque Maulana, cerca de 80 anos, Muçulmano, Macua
Numa esteira debaixo da mangueira do pátio da escola de Namanha, o meu interlocutor esforça-se por perceber as perguntas que lhe faço. Antes de cada resposta traduzida há a resposta em Macua que deixa a plateia em estado de hilariedade absoluta e eu tenho a certeza que estou a ser fortemente gozada. Ele vive sózinho e como a idade tinha sido implacável na sua mobilidade tento perceber no meio da confusão e da galhofa de que forma a rede social está a funcionar no seu amparo:
- E de milho como está?
- Está bem.
- Mas fez milho este ano?
- Eu fiz.
- Então e tirou quanto?
- Um cesto.
- Um cesto é pouco, vai fazer como quando faltar?
- Quando faltar vou comer menos.
Só depois da resposta me apercebi da brutalidade da pergunta. O sorriso, o tom de voz e o olhar perfeitamente alinhados no momento em que a minha verve perscrutante colapsou e finalmente o reconheci. Estávamos sentados na esteira mas podia ser um sofá. Toqueleque no sofá.
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